A fuga

Por: Thereza Rici

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Sábado. Duas horas da tarde. O recinto, quase vazio. Num banco comprido encostado à parede, três pessoas esperavam. Atrás do balcão em formato da letra ele, um funcionário datilografava alguns papéis. No fundo, duas salas. Na do lado esquerdo ficava o gabinete do Delegado de Polícia que, a portas fechadas, atendia alguém. A do lado direito tinha no fundo uma mesa e, em cima, uma máquina de escrever. Em frente, um banco comprido onde estavam sentadas juntinhas e de cabeças baixas, as moças flagradas no supermercado. Na frente da porta, do lado de fora, dois policiais conversavam amigavelmente enquanto vigiavam as moças detidas.

  Pedi licença e perguntei:

 - O que fizeram as moças para serem detidas?

- Estavam furtando dois litros de uísque, lá no supermercado da Estação, tivemos que detê-las.

 - Mas as bebidas não foram devolvidas para a vítima?

 - Foram, mas furtar é crime, a senhora sabe muito bem.

Fui até o gabinete do Delegado.

 - Doutor, as moças foram detidas injustamente pois, pelo que sei, ainda estavam no interior do supermercado, quando as bebidas foram apreendidas.

 - Nada posso fazer, a vítima foi lesada e precisamos dar a ela uma satisfação. Essas meninas são ladras, merecem um castigo.

Tentei argumentar que a vítima não havia sofrido prejuízo algum e, se ele concordasse, eu pagaria as bebidas para que as moças fossem liberadas, pois no meu entender não houvera crime.

- Nada feito, a senhora aguarda alguns instantes que vou lavrar o flagrante e mandá-las para a cadeia. Depois o trabalho é seu.

Encolhidas não sei se por medo ou vergonha, as moças permaneceram de cabeças baixas. Chinelos de dedo, pés maltratados, vestiam calças compridas desgastadas e camisetas com dizeres políticos. Os cabelos pretos, presos em trancinhas. Eram jovens e negras. As mãos, ó surpresa, não tinham algemas. Já esperávamos por algum tempo, quando os policiais se afastaram por instantes.

De repente, percebendo a livre passagem, pois a porta continuava aberta, Joselina, mais alta e magrinha, levantou a cabeça e, olhando-me fixamente , deu uma risadinha, balbuciou algumas palavras que não entendi e saiu em desabalada carreira deixando pelo caminho os chinelos velhos e de boca aberta todas as pessoas que ali esperavam. Por alguns instantes ficamos inertes. Fomos despertados pelos gritos do Delegado, pondo em polvorosa os policiais que, também em desabalada corrida, foram no encalço da fujona, enquanto o Doutor acionava todas as diligências.

- A Joselina?

- Caiu no mundo.
        

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