Bichos

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Morar na periferia representa pelo menos uma vantagem: o convívio com variadas espécies de bichos que, na luta vã contra a extinção, em vão tentam adaptar-se ao citadino.

Até que, durante o dia, a parafernália de sons se perde na poluição sonora, mas, de madrugada, é possível catalogar muitos dos animais que vivem na freguesia.

Há alguns meses tento descobrir a residência onde se localiza o poleiro de um galo que a princípio muito me amolou e que atualmente ouço com carinho. O bicho, ao contrário de seus parentes que tecem a manhã de João Cabral de Melo Neto, é um solitário. E parece ter engolido antigo relógio suíço. Nunca falha. Precisamente à uma hora e quinze minutos da madrugada, ele canta três vezes. Depois silencia e só volta a dar sinal de vida na madrugada seguinte.

Confesso que, de primeiro, amolava-me com seu canto que achava desafinado. No entanto, noite dessas, Coiote, meu cachorro, fez estardalhaço dos diabos quando alguém mexeu no portão. Seguramente meu fiel perturbou o sono de todos os moradores do quarteirão e adjacências. Tive, então, consciência de que, se Coiote me protege e ao seu território, alguma razão há também de mover o galináceo do vizinho.

Desde então, tenho achado até sonoridade alegre no canto e retardo o descanso à espera do galo que, afinal, ajuda a tecer meus sonhos.
 

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