As sapatilhas vermelhas

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Sua única filha se casaria dentro de alguns dias. Empolgada, excitada, ficara três meses em casa, preparando lembrancinhas, pensando no bolo, nos detalhes do casamento, queria tudo perfeito. Vestido encomendado, sapatos e bolsa combinando. Fora a outras cidades e centros maiores comprar flores, cetins, rendas largas e estreitas, passamanarias, caixinhas. Forrara novamente com cetim e renda as bandejas para acomodar doces, peças que usara no seu próprio casamento, guardadas no porão para ocasião especial que afinal, chegara. O modelo do bolo, decido. O vestido da noiva pronto para a última prova e ajustes, pendurado. Detalhes do bufê, ajustados. A música da festa, seria entregue para banda e para o DJ, e os noivos, depois de partir o bolo, dançariam a música romântica do filme predileto do jovem casal. Um sonho.

Como a festa do casamento não foi em salão convencional, contratou-se marcineiro experiente para construir ao lado da casa da família, em área especial, salão que seria desmontado, tão logo a festa acabasse. O profissional encantou-se com os muros de alvenaria cobertos de hera verdinha que cercavam a casa e decidiu que seriam as laterais do salão. Percebeu que as árvores existentes poderiam servir de elementos para ambientação, usou-as também. Construiu imenso tablado de madeira a fim de cobrir o gramado, para evitar e prevenir alagamento, que era janeiro e chovia muito. Cobriu a construção com plástico cristal, usou carpete verde para cobrir todo o madeiramento – assoalho, estacas de sustentação, tudo. Entregou o salão recém construído para o decorador e foi embora.

Meses antes, a mãe da futura noiva, na entrada do prédio de seu trabalho encontrou o encarregado da recepção vendendo sapatilhas produzidas por seu cunhado desempregado. Eram muito baratas e muito bem feitas. Para ajudar, comprou uma dúzia delas e distribuiu para amigas, funcionárias, cunhadas, parentes próximas. E nem guardou as suas, vermelhas, pois tinham tamanhos diferentes e a neta do meio ao vê-las, lembrou-se dos sapatinhos de Dorothy, do filme O Mágico de Oz, e embora faltasse pé nas sapatilhas, apossou-se delas. E o episódio foi esquecido.

Na véspera do casamento religioso, enquanto os noivos assinavam os papéis do casamento na sala da casa, o decorador terminava seu trabalho no salão externo. Ao terminar, chamou a mãe da noiva e pediu-lhe para ir ver com ele o salão decorado. Subiram dois degraus de acesso, entraram no salão, luzes apagadas, ele pediu aos funcionários para ligar os lustres da iluminação. A mãe ficou tão emocionada que desabou. Caiu. E quebrou o pé. No hospital, puseram-lhe bem feita e delicada botinha de gesso num pé e, no outro, apenas faixa de sustentação de forma que ela conseguisse andar, embora com dor, pelo menos da entrada da igreja ao altar. Os sapatos de cetim, altíssimos, se ela quisesse, que levasse nas mãos... E aí lembraram-se das sapatilhas, que serviram como luva...

Ao vê-la entrar com pompa e circunstância, mancando ligeiramente, usando as pouco convencionais sapatilhas, houve quem comentasse sobre a novidade que a mãe da noiva, com certeza, trouxera do estrangeiro, chique e entendida em moda que era. Ninguém jamais soube da verdade.
 

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