Vida de artista

Por: Sônia Machiavelli

399323

Estreou no último dia 7, nos EUA, o documentário “Pavarotti”, que nós, brasileiros, não sabemos ainda quando veremos. O trailer oficial dá mostra do que é o trabalho do diretor Ron Howard (Oscar por “Uma mente Brilhante”). O cineasta utiliza gravações inéditas e imagens icônicas do tenor que popularizou a ópera. Ao intercalar árias com fatos reais, conecta arte e vida.

Vemos Pavarotti caminhando para o palco e repetindo “I go to die” (“Eu vou morrer”), sua frase supersticiosa. Cantando “Nessum dorma”, inalienável de seu repertório. Brilhando para as plateias que o aplaudem de pé. Com a mulher Nicoletta Mantovani; as filhas Lorenza, Giuliana, Cristina; os colegas Plácido Domingo e José Carreras. Com a princesa Diana, o roqueiro Bono, outras celebridades.

Nascido numa família simples em Modena, teve de ralar para conquistar reconhecimento. O ápice foi alcançado nos concertos com Plácido Domingo e José Carreras, iniciados em 1990 nas Termas de Caracalla. Transmitidos pela televisão, foram assistidos por 1,4 bilhão de pessoas. Foi graças ao projeto “Os Três Tenores” que Pavarotti se tornou o mais amado cantor de ópera do planeta, com cerca de 100 milhões de discos vendidos. Assim reza a lenda; mas o documentário de Howard também contempla o homem. Ser humano solitário, crítico das injustiças sociais, simples mas mercurial, e sempre curioso diante do mundo que parecia querer desbravar. A primeira cena, me conta amigo que assistiu ao filme, o mostra navegando pelas águas do rio Amazonas.

A notícia do documentário me trouxe à mente um vídeo que vi recentemente chamado “Reportagens bizarras”, onde o apresentador de TV José Luís Datena conta fato que protagonizou numa Copa, parece que a de 94. Disse que tinha ido com a missão específica de fazer uma imagem de Pavarotti gritando “gol”. Tudo tinha sido difícil na empreitada cheia de “nãos”. Um dia, já angustiado, conseguiu autorização. O brasileiro estava nervoso e sua equipe mais ainda. Pavarotti, no palco, nem olhava para eles. Ensaiava para apresentação da noite. Foi depois de longos minutos que disse estar pronto.

Lei de Murphy em ação, quando o tenor começou a falar, as luzes das câmeras tremeram, amarelaram, e ele se irritou, retirando-se para o camarim. Desesperado, Datena ousou pedir a um sujeito que parecia influente entre os técnicos, que o ajudasse de alguma forma. O cara foi solícito, falou algo tipo “vou ver o que posso fazer”, e sumiu atrás das cortinas. Dali a pouco voltaram ambos, “o baixinho gordinho e o imenso Pavarotti.” Datena, surpreso, explicou trêmulo ao tenor que bastaria cantar um “gol”. Ele respondeu: “À moda brasileira ou italiana?”

Tudo filmado, o aliviado apresentador e seu pessoal relaxaram e horas depois foram ao espetáculo. No caminho, toda a equipe expressava gratidão ao homem que os ajudara e de quem eles sequer sabiam o nome.

No teatro, ao anúncio da entrada do maestro, fez-se um daqueles silêncios absolutos que gritam a reverência ao grande artista. Era Zubin Mehta, dos maiores nomes da regência no mundo.

Sentado numa das primeiras filas, o perplexo Datena reconheceu nele de imediato o “baixinho gordinho” que horas antes lhe salvara a pele.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras