Louca

Por: Janaina Leão

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Morar na periferia representa pelo menos uma vantagem: o convívio com variadas espécies de bichos que, na luta vã contra a extinção, em vão tentam adaptar-se ao citadino.

Até que, durante o dia, a parafernália de sons se perde na poluição sonora, mas, de madrugada, é possível catalogar muitos dos animais que vivem na freguesia.

Ela acordou e leu um “status” assim: “Que seja feliz estando em sua própria pele.”

Bárbara era seu nome. Pela primeira vez aceitou sem fazer críticas, algo que veio dessas soluções “miojo”, que dão a impressão de que você vai resolver tudo em três minutos, sabe?

Ela pensou: “ Taí algo que é uma arte...ser feliz na própria pele! Com seu próprio corpo e suas imperfeições, com seu biotipo “fora do padrão”, com seu cabelo em que sempre punham defeito, com suas tatuagens, com sua história que era linda, mas poucos queriam saber, porque eles buscavam a felicidade na pele alheia.

Então Bárbara, naquele momento, sentiu mesmo um alívio rápido e pensou: - Que frase profunda...

Ela deduziu que estava se tornando uma artista nisso. Porque ela era guerreira, e não se abatia facilmente.

Uma vez viu num filme que certa tribo, para derrubar uma árvore, não usava machados. Reuniam-se em volta dela e começavam a xingar e dizer todo tipo de coisas ruins...A árvore morria sozinha depois de alguns dias.

Quantas vezes Bárbara foi cercada e xingada com a mesma intenção... Mas ela tinha nascido forte, e o nome até combinou. Ela era realmente Bárbara!

Levou umas bordoadas da vida, mas estava ali no meio, na parte equilibrada da corda. Não era do tipo que tentava provar ao mundo sua felicidade postando trinta selfies por dia, o que comia e onde ia, e nem do tipo vítima do Universo, que se mostrava frágil e indefesa, quando no fundo tinha ódio de tudo e de todos. Ela era ela, diferente da maioria que a cercava, e muito, mas muito julgada por ser ela mesma.

Bárbara também leu uma vez, quando fazia faculdade de Filosofia, que nem sempre uma pessoa que caminha no sentido contrário de uma multidão está errada. Às vezes é a multidão que está doente, e na contramão da vida.

Por isso penso que para ela fez tanto sentido a solidão que sentia na caminhada, onde ela estava não havia ninguém.

Os que a cruzavam pela esquerda a chamavam vadia- vagabunda, e os que a cruzavam pela direita a gritavam Louca Varrida- Sapatão! Mas ela seguia calada, confiando na própria intuição. Bárbara também escrevia e preferia a caneta ao grito, ao xingamento, ao confronto. Era civilizada, evoluída, tinha respostas mais pacíficas aos passantes.

Dizia que escrever era um parto- doía, mas que preferia este espelho, ao da parede, ou ao do celular, e que sua pele na verdade era a folha em branco onde ela se revelava – íntegra e intacta, a despeito dos xingamentos, das ofensas de quem queria matar essa “árvore” tão linda e grandiosa... Onde já se viu matar algo que tem uns 200 anos de histórias bonitas?! Um pecado não é mesmo?

Então ela as vezes respondia baixinho, porque não tinha necessidade de ofender ninguém:

-Sou louca... louca para ser feliz, na minha própria pele...

E sobrevivia.
 

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