Travessias

Por: Sônia Machiavelli

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Grande. Assim são nomeados muitos rios por conta de sua extensão e largura. No último final de semana tive o privilégio de estar à margem de um deles. Separa nosso estado de Minas, líquida fronteira facilmente atravessada por gente daqui e dali- todos brasileiros, paulistas e mineiros.

Meus olhos desvelaram maravilhas na natureza pródiga em águas translúcidas, árvores cujos anos ultrapassam a centena, flores exuberantes de outono, até uns pés de pomelo, fruto semelhante a laranja gigante que pode se transformar em doce.

Os ouvidos um tanto moucos nos últimos tempos abriram-se para a cantoria de diferentes pássaros, em coro anunciando o raiar do dia ou a chegada da noite que iria se fazer alta (e risonha, como a quis um poeta romântico). Ficaram acurados também para as vozes adultas e infantis nos seus timbres únicos, contando e recontando a Vida enquanto o fogo crepitava numa cozinha rústica.

E os aromas de café, de cana, de terra, de vida, chegavam de todas as latitudes. Um oásis, pensei comigo, enquanto reunia na memória tudo que impactava o coração, para te contar, caro leitor e querida leitora que podem às vezes botar os olhos por aqui. Queria fazer a travessia das coisas vistas e sentidas para a escrita.

Mas na terça-feira uma imagem nublou o meu espírito, apertou meu coração, deu um nó na minha garganta- que vontade de chorar... Era tamanha a tragédia nela explícita, tal a força da foto a valer mais de mil palavras, que escrever sobre belezas e alegrias me pareceu acinte. Na margem de outro rio também chamado Grande, numa fronteira entre dois países, El Salvador e Estados Unidos, dois corpos jaziam. Um era de jovem de 25 anos; outro, de sua filhinha de 20 meses. O braço de Valéria, sob a camiseta escura de Óscar, mostrava com nitidez que ela morrera segurando-se com a mãozinha no pescoço do pai. A mãe, Tania, a tudo havia assistido, em completo desespero.

A avó de Valéria, sogra de Óscar, mãe de Tânia resumiu a história. Depois de uma peregrinação inútil pelos órgãos oficiais de migração, a família, que fugia da fome, da insegurança e do subemprego no país mais violento da América Central, optara pela travessia do rio. Óscar foi com a filha e a deixou na margem estrangeira. Ao voltar-se para buscar a mulher, teve de retroceder: a menina desesperou-se e saltou para segui-lo. Sua luta pela salvação foi inútil, a correnteza os arrastou metros além.

Como eles, centenas morreram nos últimos dois anos, sem ganhar publicidade.

Há muitas guerras no mundo. Umas escancaradas, outras ocultas. E as crianças não são poupadas. Todos os conflitos são insanos, disfarçando em motivos ora religiosos ora ideológicos a real razão do extermínio que provocam: a voraz luta pelo poder, que se deseja conquistar ou manter.
Ventos conservadores, nacionalistas e retrógrados que varrem parte do mundo dito civilizado apequenam a humanidade quando impedem qualquer tipo de travessia que poderia significar Vida. E governos autoritários, xenófobos, psicopatas estão tornando o planeta um lugar demasiadamente hostil. A tal ponto que tenho pensado muito na essência mais que nunca atual da frase de Clarice Lispector: “A realidade supera qualquer ficção.” Na vida real a crueldade se reinventa todos os dias e assume formas assombrosas e insuportáveis.

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