Z I N A

Por: Thereza Rici

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Todas as vezes que visito minha cidade natal, ao percorrer as ruas por onde andei por tantos anos, olhando aquelas casas tão modificadas pelo passar do tempo, imediatamente vem nas minhas lembranças as pessoas com quem convivi e hoje não sei por onde andam. Mas entre essas lembranças, há uma que não sei se é porque fez parte de toda a minha juventude, ou porque foi para a cidade e para mim, uma figura emblemática, me vem com mais nitidez.

Com uma idade indefinida, pobremente vestida, um lenço colorido amarrado na cabeça, uma cesta pendurada no seu braço esquerdo, encurvada pelo peso da cesta, chinelos velhos, fala enrolada, entre oito e nove horas de todas as manhãs ela aparecia, empurrava a porta da frente de minha casa, que sempre estava destrancada e entrava, sem cerimônia. Chamava-se Zina e era deficiente mental. Aquele comportamento já tinha virado um hábito, e por culpa de minha mãe, que dava à Zina o direito de chegar e invadir a casa sem pedir licença.

Minha mãe tinha conhecimento da situação da família e para dar àquela criatura tão frágil um pouco de conforto, servia-lhe o café reforçado e ainda preparava uma marmita de alimentos para que Zina não passasse fome. Durante o tempo que permanecia às voltas com seu café, pois tinha muita dificuldade de usar as mãos, falando aos trancos e barrancos contava os casos que com ela aconteciam nas ruas e que minha mãe pouco entendia.

Depois do café e de ter colocado na cesta seu almoço, saía pelas ruas da cidade pedindo ajuda, pois era através do que ganhava dos moradores que ela sustentava sua mãe doente. Os meninos travessos da vizinhança costumavam implicar com ela dizendo-lhe em forma de brincadeira – Zina, olha o capetinha dentro da sua cesta. Ela ficava muita brava, gritava com os meninos, chorava como uma criança, mas logo aparecia um adulto para socorrê-la e acalmá-la.

Na época eu estava no curso ginasial e quando minhas colegas e eu saíamos das aulas, invariavelmente encontrávamos a Zina, sentada, cansada, na porta da loja que ficava na esquina do nosso colégio, pois arrastando seus chinelos velhos, tinha atravessado toda a cidade.

Perguntávamos – Zina ganhou muita coisa hoje?

Ela mostrava a cesta cheia de alimentos e dizia com muita dificuldade:

- Tá vendo? Ganhei pra minha mãe.

Um dia ela não veio. No outro, também não.

Ficamos todos preocupados. Minha mãe, que recebia Zina todos os dias para o café, procurou saber o que teria acontecido. E logo veio a notícia. Zina tinha sido atropelada e morrera no local.

Houve uma consternação geral, pois a cidade, como era pequena, toda ela conhecia a Zina, arrastando seus chinelos velhos, com uma cesta pendurada no braço, a língua enrolada. Partira. Mas sua presença ficou indelevelmente marcada no coração da cidade.

 


 

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