Lembranças

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Perfil nada interessante. Funcionária pública, loira, descendente de italianos, neurastênica, chata mesmo. Feinha, embora dois olhos azuis, bonitos, se escondessem atrás das lentes grossas da miopia. Falava fino. Esganiçado. Não ligava muito para homens, quiçá compensação do total anonimato que desfrutava socialmente. Contam que freqüentou clubes quando jovenzinha, ninguém sabe se alguém a tirava para dançar ou se ficava sentada a noite toda, enquanto outras mimosas rodopiavam o salão. Desconhece-se se tinha amigas, se trocava confidências, ou ao menos tinha confidências para trocar. Comentava-se que única pessoa para quem sorria era para a velhinha, que lhe contava de terras distantes, origem de seus ancestrais. Conta-se que ela se derretia toda nesses momentos, dizem até que ela cantava Fratelli d’Italia, com lágrima nos olhos, única ocasião em que ensaiava e exteriorizava alguma emoção. Ficou solteira mais da metade da vida, até que encontrou o viúvo cobiçado por todas as solteiras da cidade.

Fora excelente marido e companheiro para a primeira mulher e, dizem, viúvo com tal perfil, seria sempre maridão para a segunda, a terceira, para quantas esposas mais pudesse ter. Nenhuma objeção. Todos queriam retomar a vida rotineira de antes da viuvez do pai. Os filhos sentiam-se incomodados com sua constante presença. As filhas achavam que a presença constante dele desequilibrava o ambiente. Bem-vindo era o dinheiro que sempre dera a todos. Que o trouxesse, esvaziasse a carteira e, rapidamente, voltasse para seu esconderijo. Casaram-se. Pouco tempo, tudo mudou. As filhas, quando viram o pai se derreter diante dos desejos da nova esposa, revoltaram-se. Os filhos, vigiavam de perto os gastos do casal e quase explodiam de ódio com o que chamavam de gastança desenfreada. Viagens dentro e fora do Brasil. Malas novas que voltavam recheadas de vestidos, de peles, de perfumes, de sapatos e bolsas de grife. Certa vez foram a Veneza e trouxeram, entre outras jóias, o jogo de taças, feito em cristal verde, com detalhes dourados. Não houve quem não o cobiçasse.

Ele morreu. Ela trancou-se em casa, despediu os funcionários, não recebeu mais ninguém, nem seus familiares. A intensa vida social deu lugar ao luto mais fechado que se possa imaginar. Sozinha, pedia comida pelo telefone. Viveria assim mais de ano, até que o telefone não atendeu mais, ninguém mais atendia à porta, jornais se amontoaram na escada da frente e nenhum som saía daquela casa. Ela morrera. Sozinha. Foi chamado especialista que catalogou tudo e, como ninguém se interessasse pelo espólio, puseram-no à venda pela metade do preço sugerido. As jóias estavam dentro de caixa grande de sapato. Lingeries – calcinhas, cintas-ligas ainda com meias, anáguas, espalhadas ao longo dos corredores. Vestidos amontoados pelas camas dos quartos. Tudo exposto, escancarado, sem qualquer privacidade.

Dizem, o jogo de cristal foi dos primeiros a sair, pelo preço, beleza e raridade. Colocado, com destaque, dentro de cristaleira da casa chique da cidade. Certo dia os moradores ouviram barulho de peças se quebrando. Correram à sala e viram a prateleira onde estava o jogo verde inexplicavelmente rompido ao meio. Todas as peças do jogo se quebraram. Menos a pequena taça de licor, que ficou para ilustrar essa história.
 

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