O momento certo

Por: Sônia Machiavelli

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“Caminhai tranquilamente em meio à balbúrdia e à pressa, e lembrai-vos da paz que pode existir no silêncio. Sem alienação, tanto quanto possível, vivei em bons termos com todas as pessoas. Dizei com brandura e clareza a vossa verdade; e escutai os outros, mesmo o simples de espírito e o ignorante: eles também têm história. Evitai os indivíduos espalhafatosos e agressivos, eles vexam o espírito. Não vos compareis com ninguém: correríeis o risco de tornar-vos vazio ou vaidoso. Há sempre maiores e menores que vós. Desfrutai vossos projetos tanto quanto vossas realizações. Interessai-vos sempre por vossa carreira, por modesta que seja, ela é uma posse real, nas incertas prosperidades do tempo. Sede prudente em vossos negócios, pois o mundo está repleto de logros. Mas não fiqueis cegos para a virtude que existe; muitos indivíduos buscam os grandes ideais e em toda parte a vida está repleta de heroísmo. Sede vós mesmos. Sobretudo não afeteis amizade. Também não sejais cínico em amor, pois em face de toda esterilidade ou de todo desencanto ele é tão eterno quanto a relva. Recebei com bondade o conselho dos anos, renunciando com graciosidade à vossa juventude. Fortalecei um poder espiritual, para proteger-vos em caso de desgraça súbita, mas não vos atormenteis com vossas quimeras: muitos temores nascem da fadiga ou da solidão. Acima de uma disciplina sadia, sede brando convosco. Sois um filho do universo, não menos do que as árvores e as estrelas; tendes o direito de estar aqui. E, quer isso vos esteja claro ou não, o universo indiscutivelmente acontece como deveria. Ficai em paz com Deus, não importa qual seja vossa concepção dele e quais sejam vossos trabalhos e sonhos: na desordem ruidosa da vida, conservai a paz em vossa alma. Com todas as suas perfídias, suas tarefas tediosas e seus sonhos interrompidos, o mundo apesar de tudo é belo. Prestai atenção. Procurai ser feliz.”

Você consegue adivinhar de quem é este texto iluminado pela serenidade- querida leitora, amigo leitor? Será de Montaigne? De Sêneca? De Omar Khayyan? De Kalil Gibram? Talvez um extrato daquelas “Meditações” extraordinárias de Marco Aurélio? Um trecho de Gracián? A soma de algumas máximas de La Rochefoucauld? Confúcio?

Nenhum deles, embora se possam perceber pinceladas de todos. Encontrei-o na terça-feira, entre páginas de uma edição de “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, amparada de um lado por biografia importante de Shakespeare e de outro pelo Ulysses de Joyce, em tradução elogiada para o português, que já tentei ler mas não consegui. Como às vezes acontece na relação com meus livros, o primeiro de repente ficou me acenado do alto da estante. Retirei-o de lá, abri a esmo. Junto a uma pétala seca de rosa que um dia foi vermelha, e um marcador de páginas com versos de Fernando Pessoa, achei dobrada em quatro a folha pautada e amarelada, com letra que não reconheço revelando o conteúdo aspeado com que abro a crônica deste domingo. Depois da última linha, a anotação: “De autoria desconhecida. Encontrado numa igreja de Baltimore, em 1692.”

Nunca havia lido este texto. Não sei como veio parar dentro de meu livro. Muito menos me lembro de o ter guardado ali. Mas de uma coisa tenho certeza: a hora para o ler chegou.  

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