Trinta dias, muito pouco...

Por: Angela Gasparetto

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Esta semana na visita mensal que faço à Biblioteca Municipal para devolver os livros que tomei emprestados, tomei uma decisão que acalento já há algum tempo. A de ter meus escritores favoritos ao meu lado. E também aqueles que nunca foram lidos, porque já não posso mais prescindir das suas magias tão decantadas.

Foi no momento que passei ao largo da estante dos lançamentos e resolvi reler Milan Kundera em “A insustentável leveza do ser” e “200 crônicas escolhidas” de Rubem Braga.

Foi no momento que segurei essa duas joias, pois o livro de Kundera, segundo me disseram, você necessita lê-lo em diferentes épocas da vida, quando então terá uma nova visão do mesmo. Assim, preciso ter essa experiência, afinal o li nos anos 80 e de lá para cá a minha visão de mundo mudou e foi muito.

Então, na hora de renovar, eu perguntei esperançosa à atendente, se ela não poderia dar uns sessenta dias de prazo, porque afinal estamos no mês das férias e não iria atrapalhar ninguém; disse eu com meu sorriso mais angelical. Já a atendente, gentil mas firme, informou que infelizmente não podia passar de trinta.

Sorri meio contrafeita, mas intimamente concordando com a suas regras assinei e saí com o coração em êxtase, o que acontece toda vez que pego um livro dos meus autores favoritos.

Na volta vim pensando que meu desejo era dizer à atendente que não consigo mais ler 200 crônicas em trinta dias. Muito menos o livro do Kundera, até porque além de não ter mais tantas horas vagas, não posso sair por aí lendo Rubem Braga assim, sem cerimônia. Ele é a antítese dessa visão de mundo anacrônica e sem poesia. Trinta dias são poucos, moça.

Preciso de mais tempo. E por isso decidi que preciso ter meus autores ao lado. De modo que possa alçar minha mão assim sem mais aquela e pedir a companhia de, por exemplo, Érico Verissimo e me embrenhar pelas ruas de Jacarecanga junto com o personagem Vasco ou acompanhar ao longe o Dr. Seixas em suas solitárias caminhadas noturnas.

Preciso ter ao meu lado Machado de Assis, porque viver sem ironia, impossível, moça. Saiba que de tanto necessitar de magia, já tenho Proust na minha escrivaninha. Porque o seu “Em busca do tempo perdido” é tão extenso e prolixo, desse prolixo necessário à vida, e que eu adoro, que preciso de seis meses a cada livro, moça.

E quero na minha estante “A Servidão Humana”, de Somerset Maugham, que junto com Graciliano Ramos me mostrou toda a beleza sofrida da solidão. E preciso ter “O apanhador no campo centeio” porque só nele vi a singeleza na sua mais profunda mostra.

E não posso viver sem o clima nostálgico de Eça de Queiroz, e nem da hostilidade salutar da personagem Juliana, a qual mostrou o lado mais perverso e triste da alma humana.

E ainda preciso ler “Grandes Sertões Veredas”, de Guimaraes Rosa, com calma e sei que em trinta dias jamais vou conseguir caminhar com a reverência devida no seu vocabulário sinuoso. E ainda tem Dostoievski, Neruda, Gabriel Garcia Marques e vários outros que necessitam de um cuidado mais particular.

Sem falar, moça, na necessidade tamanha de, além de lê-los, poder experimentar uma intimidade necessária nessa hora. Coisa rara no meu mundo atual.

Mas acima de tudo isso, além de lê-los pela primeira vez ou pela enésima, necessito tê-los ao meu lado, porque assim, jamais, em tempo algum serei sozinha. Então, definitivamente, trinta dias são poucos, moça. Preciso de uma vida inteira.
 

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