Gauchices

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Das boas coisas gaúchas, além de amigos de longo tempo, Glória Menezes, Gramado, Serras, cachoeiras e do queijo derretido – que são ótimas, há o vinho, rancheiras, o  churrasco, chocolates, frio, alegria, vanerão. Autores como Érico Veríssimo, Lya Luft,  Barão de Itararé, também, embora  meus prediletos sejam  Mário Quintana (Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio - um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.) e Luiz Fernando Veríssimo (Sonho é comer um churrasco preparado por gaúchos, numa praia do nordeste, com mulheres mineiras, organizado por paulistas e animado por cariocas. Pesadelo é comer um churrasco preparado por mineiros, numa praia gaúcha, com mulheres nordestinas, organizado por cariocas e animado por paulistas.) De Luiz Fernando Veríssimo e Mário Quintana, contam-se histórias engraçadas. Personalidades distintas, Luiz Fernando, embora tivesse viva presença de espírito, fosse mordaz e rápido de pensamento, era calado e taciturno, ao contrário de Mário Quintana que, também espirituoso e autor de respostas antológicas engraçadíssimas dizia-se, falava pelos cotovelos. Alguns textos de ambos, por causa dessa característica em comum, muito freqüentemente têm autoria confundida. Muitas vezes, eles nos surpreendem com trabalhos que saem completamente fora do padrão tradicional. Luiz Fernando, por exemplo, publicou “Pai não entende nada” onde, numa crônica ele apresenta rica coletânea de frases, comparações, máximas, aforismos, e ditados do rico folclore do seu rincão. Dentre os milhares existentes, selecionei alguns poucos que dão idéia da riqueza bem-humorada, da sutileza e sensibilidade destes nossos irmãos. Meus prediletos:
 
Vela acesa não acorda defunto.
Mais grosso que dedão destroncado.
Sortido como baú de velha.
Mais sovado que sovaco de sapo.
Quieto como guri borrado.
Quem vê cara não vê as unhas.
Quem monta na razão não precisa de esporas.
Quem puxa a teta bebe o apojo. 
(Apojo é o último leite da vaca, mais rico e saboroso.)
Sofredor, como vaca sem rabo. 
( Sem ter como abanar as moscas.)
Para quem vive em cozinha é Verão o ano todo.
Praga de urubu não mata cavalo gordo.
Pobre só vai pra frente quando a polícia vem atrás.
Perder a ceroula dentro da bombacha. 
( O cúmulo da distração.)
Mais espremido que alpargatas de gordo.
Rápido como enterro de pesteado.
Gordo que nem noivo de cozinheira.
Folgado como cama de viúva.
Esquecido como encomenda de pobre.
Enrolado como lingüiça em frigideira.
Diz mais bobagens que caturrita de hospício.
Fácil, como punhalada em melancia.
Assustado como cachorro em canoa.
Todo cavalo tem seu lado de montar
(Diferentes pessoas, diferentes abordagens.)
A sombra da vaca engorda o terneiro.
(Filho criado perto da mãe se cria melhor.) 

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