Amor de mãe

Por: Thereza Rici

400063

Dona Josefina era uma velhinha simples e agradável. Usava um lencinho amarrado nos cabelos brancos e ralos, vestia blusa de mangas compridas, uma saia de chita também comprida, trazia nos pés sapatinhos tipo moleca e uma sombrinha debaixo do braço. Magra e um pouco curvada pela idade, atravessava a cidade a pé , sem se importar com a distância.

Sempre que Joselito, seu filho caçula, ficava detido, dona Josefina aparecia e, num lamento só, me convencia a fazer de tudo para libertá-lo. Joselito não trabalhava, vivia às custas da pensão que a mãe recebia e estava sempre envolvido em furtos de pequeno valor, caracterizando com propriedade o ladrão de galinha e por isso mesmo vivia preso.

Mas furtando uma coisa aqui, outra ali, sua ficha criminal foi crescendo e numa das últimas vezes que foi preso, não houve como tirá-lo com a pressa exigida pela dona Josefina.

O tempo passou e de repente dona Josefina apareceu e desfiou seu rosário de lágrimas.

- Vim saber se a senhora pode fazer alguma coisa pelo meu Joselito. Eu preciso dele, estou passando fome.

- Olha dona Josefina, vou fazer o pedido ao Meritíssimo Juiz e levar a senhora até seu gabinete e o resto fica por sua conta. Empurrei a mulher pelo corredor, mandei-a entrar, enquanto fiquei de fora, ouvindo e esperando.

- A senhora quer falar comigo?

- Ah! Doutorinho, eu vim aqui pedir para o senhor soltar meu filho, ele está preso faz tempo e eu estou passando necessidade. Ele é bom para mim, quando está na rua me ajuda.

- Quem é seu filho ?

- É o Joselito, sim senhor.

- Como é o nome da senhora?

- Josefina e sou a mãe dele.

- Olha, dona Josefina, vou ver como anda o caso do Joselito. Se ele estiver com a pena cumprida, eu atendo o seu pedido.

Dias depois o Joselito estava na rua. Entusiasmada com o resultado, de vez em quando, eu empurrava uma mãe de preso, pelo corredor, para implorar clemência ao Magistrado.

Uma tarde após uma audiência, o Juiz pediu para que eu esperasse. Quando a sala ficou vazia, ele me disse:

- Vou pedir-lhe um favor. Não traga mãe de preso ao meu gabinete. Atrapalha o expediente e como sou preso ao cumprimento da lei, às vezes não posso satisfazer o desejo das mães.

Já havia passado algum tempo dos acontecimentos, quando necessitando de um despacho de sua Excelência, dirigi-me ao seu gabinete, mas ao chegar à porta, que esta aberta,vejo dona Josefina em frente à mesa do Meritíssimo Juiz, trazendo a sombrinha debaixo do braço e a mesma ladainha.

Fiquei apavorada. Tão logo a velhinha deixou o local, pedi licença ao Magistrado e entrando disse:

- Excelência, espero que o senhor não pense, que fui eu quem trouxe dona Josefina ao seu gabinete. Há muito tempo não a vejo e não tinha conhecimento de que o Joselito está preso novamente. O nosso encontro nesse momento, foi apenas uma coincidência.

- A dona Josefina aprendeu o caminho.

Ia protestar, quando ele, me interrompendo, disse:

- Não se preocupe. Afinal de contas, quem se importa com eles, a não ser as mães, como dona Josefina?

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras