e então a senhora cansada partiu

Por: Mirto Felipim

400066

(obrigado à Úrsula, à família Nascimento e às meninas Suellen e Susi, por todo carinho com Ela)

E ntão, no dia três de julho de dois mil e dezenove ela partiu. simples assim, como apenas mais um fato corriqueiro num dia atribulado como todos os outros dentro do hospital e de nossas vidas. noventa e um anos, duzentos e sessenta e sete dias depois de ter vindo ao mundo, era devolvida à incerteza do desconhecido.

cumpriu todo o ritual de uma moça da roça, que em mil novecentos e quarenta e cinco casou-se com o homem, que, além de ser o parceiro com quem sonhava nas noites quentes do interior paulista, rolando no colchão de palha, também seria a passagem de libertação, para finalmente ser dona de sua própria escravidão, chamada lar, se livrar do cabo da enxada, para se prender à vida de sacrifícios, com uma penca de cinco filhos pendurados na saia, menos um que se foi prematuro nas complicações da época.

sem nunca reclamar de sua sina, criou os filhos na luta de vencer um dia após o outro, enterrou prematuramente o marido, criou netos, ajudou outros, recebeu os bisnetos com o amor de bisa, que é muito maior do que o de vó, viveu momentos de prosperidade e decadência, até ir se curvando ao peso de tanta vida, tanta luta.

a casa, antes dominada por sua altivez e orgulho de fazer todo o serviço e ainda sobrar tempo para aulas de ginástica e bailes da idade, tornou-se sombria, conforme suas costas se curvavam, a perna falhava, o ânimo se esvaia e o mundo se tornava confuso, com as coisas mudando de lugar, as horas se confundindo, os cantos dos pássaros mudando de horário, o gás acabando antes do tempo, a roupa lavada ainda ontem novamente dentro da máquina.

contudo, no último ano de vida, já demente, vivendo também no mundo paralelo de pessoas sepultadas que vinham visitá-la, encontrou um anjo que lhe fez da vida já desbotada um arco-íris de peraltices e risos soltos. sua neta Úrsula, arrombou as portas da própria casa e, junto ao marido e dois filhos, descortinou um novo mundo para aquela senhora cansada.

foi o melhor ano para a anciã, que, finalmente despreocupada com as “obrigações” da casa, apesar de imobilizada na cama ou na cadeira de rodas, descobriu um novo mundo, onde tudo era permitido, menos o que o médico proibia. Úrsula, sua neta, deu a ela um ano inesquecível de delicadezas e permissividades inocentes. ela redescobriu o sabor do picolé, do capuccino e outros pequenos mimos. seu riso murcho e frouxo de chacoalhar a barriga voltou espontaneamente, alegrando a casa e a mim particularmente.

nos dias derradeiros, internada e já sem esperanças de que vencesse mais aquela batalha, mesmo no seu labirinto de demências, manteve a dignidade de uma senhora plena do dever totalmente cumprido, sem esboçar uma reação sequer de revolta ou lamento. aceitou todas as agulhadas, sondas e demais parafernálias hospitalares, sem um grito de dor, e, assim, foi partindo sem escândalos, dos quais sempre teve horror, até se desligar totalmente da matéria, para ir ali mesmo ver o Juca, seu marido, e a mamãe, minha vó Ana, que ela tanto evocava no último ano de exílio glorioso.

a tristeza e o desespero da Úrsula, ao lado dela literalmente até o último momento, foi o mais sintético retrato de amor verdadeiro e incontido que pude presenciar nesses tantos anos de vida. Amor maiúsculo e puro vindo, quem sabe, de outras vidas. lição para todos nós. obrigado, minha Flor de Luz, Úrsula, por ter dado à minha senhora cansada tanta alegria no ano derradeiro.

 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras