Olga

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Comadre Olga, comadre de mais de cinquenta famílias de Franca e região, foi embora. Olga, amiga de décadas das pessoas de gerações mais antigas de Franca, faleceu. A Véia, professora de Educação Física, morreu. Nossa querida Olga partiu semana passada, essa é a verdadeira manchete. Depois de dias de internação e muito sofrimento, ela foi embora. Deve ter ido resmungando, como era de seu costume, hábito que foi responsável pelo apelido – carinhoso – que carregou pela vida afora. Segundo ela contava, era chamada Zéia pelas crianças de sua própria família que não conseguiam falar seu nome de batismo. Um dia, na quadra, d. Helena Barbosa, técnica e treinadora de basquete e sua professora de Educação Física, ouviu-a resmungando a respeito de algum comando dado, e comentou em voz alta que ela não era “Zéia”, na verdade mais parecia uma “Véia” reclamando de tudo e de todos. O apelido pegou. Ela o assumiu. Quem quer se aproximasse dela, a chamava antes pelo apelido, que pelo próprio nome.

Há muita coisa para contar a respeito de Olga. Que ela nunca esquecia o aniversário das pessoas com as quais convivia. Nunca. E sempre chegava no dia certo, com embrulhinho nas mãos, se desculpando pela simplicidade do presente. Que é comadre de muita gente. Na minha família crismou minha filha, é madrinha de batismo do meu sobrinho. Que não teve uma vez que eu fosse visitar minha filha no exterior, que ela não trouxesse, se desculpando, um pacote de goiabada e outro de doce de leite, presentes para ela. Ao preparar as malas, já previa um quilo, antes de começar a empacotar minha tralha.

Olga, para nós, é sinônimo de lealdade, delicadeza, generosidade, fidelidade, respeito e foram essas virtudes que lhe abriram portas de palácios e choupanas, que faziam festa para recebê-la. É lenda do esporte francano, deixa nome de importância como o de Pedro Morila Fuentes e Helena Barbosa. Professora de Educação Física de muitas gerações, era conhecida no mundo inteiro: nos cinco continentes, descobrimos, havia alguém que fora aluno ou aluna dela... E que memória prodigiosa. Sabia quem era quem na história francana, reconhecia pessoas nas fotos que lhe mostrávamos. Perguntávamos de havia sido o Coronel Francisco Alves, que viveu na Franca dos anos 30, seu primeiro namorado, ela gargalhava e emendava que sim, tinha sido, mas quem teria dançado com ela a valsa dos 15 anos, foi o Caetano Petraglia, figura importante, mas de outra geração.

Nunca soubemos que ela tivesse vivido uma paixão na vida, seus amores foram sua família, irmãos e sobrinhos, que ajudou até o dia em que foi levada para o hospital. Deixa uma única irmã dos onze que teve, sobrinhos, primos, afilhados, amigos e uma legião de ex-alunos que jamais se esquecerão dela. Todo domingo, por volta das 16 horas, caso escute a campainha da porta tocar, pensarei que poderia ser ela, que chegava e já ia implicando com o horário tardio do meu almoço com a família.

Um dia a gente se reencontra. Espero.
  

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