Sinais de alerta

Por: Sônia Machiavelli

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Nos vinhedos de Mendoza plantam roseiras ao redor das parreiras, o que confere um bonito aspecto à entrada das vinícolas. Mas a intenção dos que fazem isso não é estética. Embora as flores embelezem o lugar, sua existência tem cunho essencialmente preventivo. Quando fungos que poderiam inutilizar pomares e inviabilizar toda produção de vinhos chegam, encontram as rosáceas nas quais se alojam, murchando suas folhas. A essa reação são tomadas providências para extinguir os invasores com fungicidas, antes que alcancem a vinha .

Na mexicana Taxco, lugar de exploração desde que os espanhóis ali chegaram no século XVI, a grande quantidade de prata enriqueceu a Coroa e permitiu à cidade, que se parece com a nossa Ouro Preto, embelezar-se com a arquitetura colonial que timbra igrejas e prédios. Reza a lenda que era usual aos mineiros soltar um pássaro para o interior de cada mina onde trabalhariam. Se a ave voltasse, entravam. Mas se decorrido o tempo estipulado pela experiência ela não retornasse, significava que havia grave risco: algum gás letal teria escapado das entranhas da terra.

Os romanos criavam gansos que colocavam na mais alta das colinas de Roma, onde se erguia o Capitólio, principal edifício do Império, a fim de que eles sinalizassem a chegada de inimigos ao lugar. Como se sabe, dentre as aves os gansos são as de audição mais acurada, de forma que podem detectar o som de um jato à altura que nossos olhos não alcançam. Os do Capitólio sinalizavam ruídos a considerável distância, o que permitia aos guerreiros se prepararem para alguma investida adversária.

Mas, às vezes, porque somos humanos e falhamos, algum plantador de uvas distraído deixou de atentar para a mudança de aspecto das roseiras. Mineiros apressados não aguardaram tempo suficiente para o retorno do pássaro. Apesar do alarido dos gansos, soldados exaustos não acordaram. Então perderam-se frutos, safras, vidas humanas.

Esses registros me foram despertados pela tragédia que acometeu quatro pessoas de uma mesma família em Santo André, na semana passada. Pai, mãe, dois filhos- uma adolescente de 14 anos e um menino de quatro, foram encontrados mortos por uma parenta que mora no mesmo prédio e estranhou a falta de notícias dos que, horas antes, haviam chegado de animada viagem à Disney.

Arrombada a portado apartamento, depararam com a mãe dentro do box, chuveiro ainda ligado. A menina, no andar de cima do beliche. O pai, abraçado ao filho, na cama de baixo. Todos envenenados pela combustão do monóxido de carbono, gás tão inodoro quanto mortal, exalado pelo aquecedor. A mãe teria sido a última a tomar banho, pois a filha mais velha já tinha ido dormir – e o pai ninava o mais novo. As malas nem tinham sido desfeitas. Por causa do frio, todas as janelas estavam fechadas.

Em junho, dias antes de viajar, os quatro haviam sido atendidos em pronto-socorro com crises de vômito. Foram diagnosticados com sinusite e desidratação. Neste mesmo dia, uma calopsita de estimação da família morreu na área de serviço.

A gente precisa estar sempre muito atenta aos sinais que nos rodeiam. 

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