Sobre máquinas de escrever, vitrolas e vida

Por: Angela Gasparetto

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Dia desses vinha pensando sobre a vida e como tudo agora muda alucinadamente.

Isso me ocorreu porque recentemente “desencavamos” a nossa antiga máquina de escrever.

Era uma Olivetti-Lettera 82, verde de teclas macias e ruído inconfundível. Queríamos fazer umas fotos descoladas, mas observei que junto com a Olivetti veio um monte de emoções antigas de puro prazer pelos anos idos.

Quando compramos essa máquina foi um acontecimento; de repente a liberdade fez morada em nossa casa. Uma máquina de escrever é como um livro, a mesma nos leva a lugares inesperados. Você pode escrever o que lhe der na telha e ver materializar na sua frente seus pensamentos mais impossíveis ou até mesmo o seus pesadelos mais bizarros. Basta ter criatividade, tempo e colocar seus sonhos ao vento. Pois, lembro-me que sentava frente a ela de forma destemida, com o coração em êxtase como se fosse partir para uma grande aventura.

Então, de repente, percebi que sentia falta de ouvir o “tec-tec” destas máquinas de escrever; embora aprecie o dinamismo do computador e a sua incomensurável capacidade de armazenar dados. Mas falta-lhe o charme necessário que as máquinas possuíam, a peculiaridade das suas fontes e a sinuosidade das suas escritas.

Escrevemos de tudo nessa Olivetti; de trabalhos escolares na adolescência a currículos pretensiosos na maturidade. O som das suas teclas era um acalanto em nossa vida e o mesmo nos remetia a uma espécie de diligência necessária à vida que não podia estagnar.

E por falar em obsolescência, junto com a máquina de escrever, sinto falta da vitrola antiga, pois descobri que o som dos vinis acalenta mais os ouvidos do que o mais moderno MP3 com toda a sua tecnologia.

E acho que o mercado também é saudosista, porque hoje em dia, além das vitrolas, os músicos voltaram a lançar discos de vinis. Intimamente aplaudo essa atitude e celebro uma espécie de vitória particular perante esse retrocesso tão eficaz aos nossos ouvidos.

Mas acho que o que me falta mesmo é a aura dos belos anos, a singeleza do novo que agora ficou velho. O proibido que de repente era acessível, a novidade que era a mescla da invenção com a alegria.

Eu sou saudosista sim, eu sei.

Ser saudosista me acalenta a alma, me legitima frente a esse mundo e faz-me seguir assim, aceitando esse novo inexorável, e sorrindo feito boba ao carregar o velho, como um tesouro mágico a ser degustado na janela entreaberta da minha vida.

  

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