Velório

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

400356

Fio?! Tá cum medo de quê? A morte chegô, num adianta querê fugí dela não. Quem bateu as botas, com descurpa da má palavra é parente seu, mas ocê num conhecia ele direito. Chegô a hora derradeira, partiu. E foi embora sem lá munto sofrimento, graças à Nossa Senhora da Boa Hora! Suspirou, tremeu e foi. Agora é corrê com os perparativo. Tô me lembrano da comadi Zéfa. Maria Josefina Silva Leite, por casamento Pereira tamém. Pereira e Leitão. Só que ela tirô o Leitão porque não achava que muié devia levar nome de bicho. De pranta dava, mas de bicho, não. Se ainda fosse Leão... Pois antão. Nóis morava no meio do nada, na aba da Canastra, uma casa aqui e outra lá longe. Às veis a gente se encontrava, quando matava porco pra fazer lingüiça; queijo; doce de leite; quitanda. Mas tudo era difíci. Tinha vêis que a gente tirava o leite, chamava os cumpanheiros, eles demorava, e olha nóis ali, dando de mamá pro São Francisco, um esperdíço só. Mas quando dava certo, era bão demais. Vinha véio, moço, menino, menina, vinha todo mundo e todo mundo trabaiava e no fim nóis distribuía. Quem troxe mais, leva mais; quem féis mais, tamém. Simpres. Ah! E tinha os violeiro! Eles isquais nem trabaiava, mais entrava na partilha. Um domingo a comadre Zéfa se alevantô, foi com a famía na capelinha dos Zóio d’Água, pra missa. Fôro de carroça, comêro poeira inté, mas obrigação com o Sagrado, eles cumpria direitim, por maió que fosse o sacrifíço. Na vorta, foi chegano gente, que o marido dela, o Sêo Felisbino, era festeiro que só. Tinha gente ispindurada até no varal... Armoçaram, teve café no terreiro, proseio... Na tardinha, todo mundo se perparano para vortá pra casa, o frio foi vino, chegano, baixano a neblina, a comadre se sentiu mal, deitou, deu um suspiro e morreu. Sem fazer um baruim. Nem dava pra aquerditar! Já tava escuro, inda deu para avisar uns parente, us vizinho e o povaréu foi chegano de volta. Não dava pra acomodar todo mundo na sala, onde tava a defunta, deitada na mesa da cozinha, em riba do lançor branquinho, que ela merma lavô e engomô de poco. Num tinha caixão. O frio baixando. Fizero fogueira, a gente se amontoô. Acendero o fogão, o calô se espaiô pela casa. Foi aí que lembraro de fazer algo de tomar, para esquentá os de fora tamém. Não tinha leite, mas tinha pinga e decidiro pelo quentão, de muita serventia. Fizero um cardeirão, fraquinha. Fizero otro, fortinho. O tercero, o quarto. Cada veiz mais forte. Os ânimo se fortaleceu. Aí, o sanfoneiro tocou uma toada, emendou com outra; arguém cantô, a maioria acompanhô. Dois saiu dançano. Aí, virô forró. Até o viúvo dançô com antigo afeto, com quem se casou poucos meis despois. Enterraro a comadre Zéfa, pouca gente fala daquele velório, não sei se por vergonha, ou pruquê não se lembra mermo. Vamo velá seu difunto, que está esfriano e a safra de pinga foi munto boa esse ano!

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