A inteligência das plantas

Por: Sônia Machiavelli

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De tal forma me encanta o mundo verde, em tudo diferente do animal, que comecei a ler aqueles que vão fundo nos estudos sobre o reino fantástico. Foi assim que cheguei ao neurobiólogo italiano Stefano Mancuso, que vai lançar neste agosto, no Brasil, o livro “A Revolução das Plantas”, pela editora Ubu: «As plantas podem ensinar aos seres humanos como agir de maneira cooperativa, descentralizada e não hierárquica”. Uma utopia? Talvez uma inspiração.

Com Mancuso aprendo que humanos, quando olham um eucalipto solitário, uma alegre primavera ou um luxuriante fícus, nunca pensam que tais organismos, em nada semelhantes ao nosso, tiveram um último ancestral comum aos animais há 600 milhões de anos. Foi por essa época que, emergindo das águas, a vida conquistou a Terra. Plantas e animais se separaram e tomaram rumos diferentes. Os animais começaram a se organizar para se mover. As plantas, sem condições para a mobilidade, enraizaram-se utilizando como fonte de energia a luz solar. E por ficarem presas ao solo, evoluíram com soluções diferentes das dos animais. Se, ao longo da evolução, correr era para estes salvar a própria pele dos predadores, para aquelas o recurso seria outro.

Como nós, mamíferos bípedes marcados por feroz narcisimo, em geral só compreendemos o que nos é semelhante, não entendemos as plantas como organismos. No entanto, avanços na pesquisa mostram como elas são dotadas de inteligência específica que lhes permite distribuir por toda sua extensão funções que os animais concentram em órgãos específicos- coração, pulmão, rins, fígado etc. Plantas respiram, sentem, metabolizam, calculam com seu corpo inteiro e assim podem sobreviver à predação: brotam depois de podadas, algumas ressurgem ainda mais fortes após incêndios. Resistem às adversidades porque sua organização como ser vivo prescinde de um centro de comando que é substituído pela distribuição de funções pelo todo.

Num dos capítulos mais interessantes, o autor explica como as plantas sobrevivem sem o cérebro, órgão que está na base de toda resposta animal. Em exposição ampla e bem articulada, avalia e analisa a parte mais importante para os seres enraizados: justamente as raízes, rede física cujas extremidades formam uma frente que avança continuamente. Composta de inúmeros e minúsculos centros de comando, cada um deles reunindo informações durante o crescimento da planta, decidem em qual direção seguir. É incrível pensar nisso: à medida que se desenvolve, cada raiz adquire informações fundamentais para a nutrição, sobrevivência e orientação espacial da planta que sustenta.

Essa frente radicular consegue alcançar dimensões impressionantes. Um grão de centeio pode desenvolver centenas de milhões de ápices- nome que se dá ao extremo de um órgão vegetal. Quando se pensa numa oliveira adulta, serão bilhões de raízes se movendo. Mancuso lamenta a falta de ferramentas capazes de registrar o movimento delas no subsolo. Mas dá notícias de que sistemas de análise não invasivos e contínuos de imagem tridimensional estão sendo desenvolvidos. Com eles teremos acesso a novos dados sobre essa parte oculta das plantas.

Uma informação relevante: todas as espécies vegetais reunidas representam 80% do peso de tudo que vive na Terra. É uma incontestável capacidade de afirmação entre os seres vivos. Alguma dúvida?
 

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