O tempo e o vento

Por: Angela Gasparetto

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Gosto muito de falar sobre o tempo e o vento... E nada de parodiar o ilustríssimo e amado escritor Érico Verissimo. Mas são elementos constantes na minha vida e por consequência na minha modesta escrita.

Lembro-me de que em criança, quando ainda morávamos na fazenda, eu e minha irmã ficávamos na janela apreciando a estrada que passava em frente à nossa casa. Era de terra vermelha e nela passava boi, passava boiada, como dizia aquela música de Arnaud Rodrigues. Mas, principalmente passava gente. Gente que tinha tantos afazeres, lutas e sonhos.

Ao longe ficávamos apreciando o movimento do vento na camisa dos lavradores e nas saias das senhoras. Ele fustigava tanto, e caso não segurassem o chapéu, lá se ia o mesmo voando pelos pastos e com certeza abrigaria a cabeça de algum desavisado.

Acredito que a expressão “vento na blusa” que minha avó materna usava e que me instiga tanto, vem dessas imagens das pessoas que seguiam pela estrada sendo fustigadas pela vida e pelo vento. A mim, aquela luta contra a natureza assemelhava à luta pela vida, pois eles seguiam a pé pela vida, indo trabalhar, indo à cidade, ao médico ou à festa, sempre fustigados pelo vento e sempre possuídos daquela fé e determinação tão características das pessoas lutadoras.

Quando se vive no campo, somos guiados institivamente pelos elementos da natureza. Então a chuva era recebida com reverência e alegria, pois ela tinha como fim regar a lavoura e refrescar as casas, mas dependendo da sua intensidade era também mau presságio.

O céu era constantemente vigiado, porque a nossa meteorologia era o humor das nuvens, o brilho do sol, as fases lunar e a constelação das estrelas. Eles ditavam a plantação e a colheita, nascimento e morte e nada acontecia fora desse ciclo que era considerado divino e seria heresia acreditar o contrário.

Cresci com os elementos da natureza ditando a vida e as escolhas. E com as luzes que, embora fosse uma modernidade, eram escassas à noite e que por consequência dependíamos da lua e das estrelas.

Nessa mescla de crenças, vida e tempo, o vento era senhor daquela vida e impulsionava o nosso tempo, a espera, as escolhas e os recomeços. Então, acredito que este elemento ficou tão presente no meu inconsciente que aonde vou, deixo o vento me levar.


 

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