MC, NL

Por: Sônia Machiavelli

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Por acaso você, meu leitor, está lendo com menos atenção e, quem sabe, lembrando menos aquilo que leu? Acaso você percebeu que, ao ler numa tela, está cada vez mais lendo por palavras-chave e sobrevoando sobre o resto? Acaso esse hábito ou estilo de ler na tela “contaminou” sua leitura em cópia impressa? Você percebe que ficou lendo várias vezes a mesma passagem para entender seu significado? Você suspeita, enquanto escreve, que sua habilidade para expressar o ponto crucial de seus pensamentos anda um pouco falha ou reduzida?

As frases do parágrafo anterior povoam páginas de “O cérebro no mundo digital’, livro da neurocientista Marianne Wolf, cujas pesquisas sobre letramento conquistaram diversos prêmios acadêmicos. Na obra publicada pela editora Contexto, a autora se dirige aos leitores através de cartas, criando uma comunicação atraente que os leva ao desejo de avançar para descobrir as respostas que talvez ela tenha a dar.

Wolf caminha no terreno da ciência para chegar à conclusão de que a nova maneira de ler nas mídias digitais está modificando também o jeito de escrever. Uma geração de jovens criados na Internet e no Twitter, inundados por caudaloso volume de palavras mas acostumados a usar apenas 140 caracteres, têm bastante dificuldade para apreciar uma página de Heminguay, por exemplo. E, consequentemente, para descrever com clareza uma ideia ou expressar em profundidade os sentimentos.

Não por acaso, Wolf recorre à famosa fala de Sócrates, segundo a qual, “se os homens aprenderem a escrever, o esquecimento será implantado em suas almas; eles deixarão de exercitar a memória por confiar naquilo que está escrito, evocando as coisas não mais do interior de si mesmos, mas por meio de sinais externos”. É claro que ele não pôde avaliar o que significaria ter acesso a ambas as formas de memória. Mas sua preocupação em relação à retenção do conhecimento está voltando à pauta. Estudiosos da linguagem alertam para o fato de que não estamos atentando para o significado das mudanças profundas no modo de ler e escrever e pensar.

Para ensaístas como Walter Ong, citado por Wolf, nossa evolução intelectual não tem tanto a ver sobre como os meios analógico e digital diferem entre si, mas como está reagindo o cérebro de humanos que herdaram a cultura baseada no letramento e de repente se viram lançados à cultura digital. Ong coloca duas questões importantes. As mudanças na leitura, na linguagem oral e na escrita seriam tão sutis que, antes que atentássemos a elas, teríamos esquecido aquilo que pensávamos ser verdadeiro, belo, virtuoso e essencial? Ou seremos capazes de usar a totalidade do conhecimento presente e nossas inferências com base nele para escolher o que há de melhor nas duas mídias e então ensinar aos jovens?

Meu espaço, que admite apenas 500 palavras, não me permite ir além. Antes que se exaura, recomendo a leitura desse livro de 250 páginas e grande valor para compreender de que maneira nosso cérebro pode estar mudando.

Sobre o título desta crônica, é uma abreviação feita por alunos em prova de compreensão de texto com menos de mil palavras: Muito Comprido, Não Li. Ou melhor, em busca de coerência: MC, NL.
 

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