Linha do tempo

Por: Angela Gasparetto

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Redes sociais podem ser um aborrecimento, alguns dizem e eu concordo, mas muitas vezes também podem ser um acalento ao seu coração.

Vi essa semana uma “repost” feito por minha irmã. Era uma foto antiga onde estavam minha mãe, minha irmã, minha avó “Mãe S’Ana” (era assim que a chamávamos, não sei o por quê), minha afilhada Elaine e sua filhinha. Quantas pessoas queridas! Nesse momento pensei que se pudesse ter um botão que acionasse a volta no tempo, eu iria para esses momentos de alegria e cor.

Assim, faria o caminho da infância pela Av. Major Nicácio, viraria à esquerda na Floriano Peixoto e abriria como quem não quer nada o portãozinho da casa da minha avó Chica.

Miraria suas cortinas de fitas, e às vezes de chita, tomaria seu café extremamente doce e à noite me cobriria com sua colcha de retalhos ouvindo os cascos dos cavalos na rua de paralelepípedo.

Voltaria sorrateiramente e espiaria nossos risos à mesa dos almoços de domingo, ou minha mãe fazendo seu indefectível macarrão. E também miraria a casa toda acesa para a noite de Natal e me alegraria com a chegada dos nossos amigos, compadres e crianças.

Exultaria com os Natais na casa da nossa vizinha Zélia e de sua família que se tornou nossa.

Riria em êxtase ao contemplar a abertura dos presentes no amigo oculto. E me divertiria à grande com a surpresa inocente da minha amiga Lígia, que, em criança, sempre queria saber com antecedência quem era o amigo de todos na brincadeira de Natal.

Voltaria assim como quem não quer nada, e assistiria a meu pai e seus amigos ouvindo “A voz do Brasil” no rádio do vizinho ao lado; isso depois da lida na lavoura. E com prazer veria nossas pernas curtas fugindo de nossa mãe para alguma travessura já articulada. E pararia repentinamente ao ouvir o som peculiar do bambuzal que era uma cerca viva natural ao fundo do nosso quintal.

Comeria os doces da venda dos meus compadres Ademar e Luzia, correria de volta da escola para ler o Mickey Mouse e o Tex. E às escondidas começaria a conhecer Machado de Assis com o seu livro “Helena”. Surrupiaria os amendoins guardados para o pé de moleque e chuparia cana como se não houvesse amanhã.

Experimentaria sozinha as jabuticabas da minha madrinha Jandira e comeria todos os melões doados pelo Sr. Eustáquio. Bem às escondidas, furaria o papel de presente para visualizar as bolas coloridas que minha irmã Cidinha comprava para nós no Natal.

E também faria uma visita aos anos 90, de modo a ouvir ao longe o toque obsoleto do nosso telefone e ter certeza que seria salva do caos imaginário que por ventura criasse. E ouviria Rod Stewart à exaustão e à sesta leria todos os livros de Fernando Sabino novamente, apenas para morrer de rir com ele e ter certeza de que essa vida não é para ser levada a sério mesmo, como ele dizia.

Voltaria sim no tempo. Porque se temos um botão para voltar, então que voltemos para esses momentos mágicos. São esses que valem uma vida.


 

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