As Podas

Por: Maria Luiza Salomão

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Chega a sazão em que é preciso cortar galhos, parte do caule!, e confiar que as raízes sustentarão o ser até que a primavera chegue. Momento difícil, de decisão. Às vezes os galhos mostram flores e frutos tardios, tudo parece ainda tão bonito, mas zás, meu bom jardineiro – sem dó nem piedade - me diz que é hora, tempo das podas. Tempo de corte, como fazemos com os cabelos em crescimento desordenado, estrambólico, fios desfiados, com pontas. Cortamos para dar força aos cabelos.

É tempo de fé no que virá.

Fotografei as árvores, arbustos, troncos torcidos, desnudos, tocos que se tornaram, quando há pouco cobertos de folhas. Guardo o momento de despojamento da vitalidade aparente. Aguardo o momento em que brotos verdes renasçam do cinza-amarronzado dos caules tosquiados, dos troncos decepados.

É tempo de resguardo do que já foi.

A espera começa. Dentro de mim, lembranças se movem do tempo em que vi morrer, vi renascer, vi morrer de novo, e rebrotar mais uma vez.

É tempo de olhar e ver, acompanhar o lento despojar do aparente. Observar o cuidado para regar e valorizar o que olho e não vejo, apenas adivinho e desejo. Detalhes.

Assim me preparo para outros climatérios mais difíceis. Mudanças trágicas e mudanças que têm de acontecer, em mim, nos meus amores, no ambiente que me parece insuportável e no que luto para fazer acontecer. Sociológica, política, histórica, antropológica, filosófica, poética, psiquicamente.

Podaduras, desbastes, podas precisam ser feitas com habilidade e experiência: aprender quando, como e com quem se faz podas.

Não se poda ser vivo, a torto e a direito, sem conhecimento norteador. Saber das origens, para realizar trajetórias, é fundamental. Não se pode podar a História: no presente, ela fortalece convicções e elimina equívocos. É a História que nos conduz ao futuro, frutífero e robusto.


 

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