Olhares

Por: Sônia Machiavelli

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Nimes é uma cidade do sul da França, famosa pelo legado que os romanos ali deixaram: templos, pontes, aquedutos. Tem parques edênicos, feiras de rua com a rica produção agrícola local, barracas de peixes recém-pescados no mar. Ostenta também uma das mais antigas universidades do país.

Conta-se como fato, embora pareça lenda, que em 1647 o doutor Vicent de Paul D’Argent, especialista em doenças dos olhos e professor do curso de Medicina, tornou-se pioneiro ao fazer o primeiro transplante de córnea da história da humanidade. Seu paciente, um jovem que apesar da deficiência ajudava os pais na lida do campo, custou a ser convencido pelos argumentos do médico. Este lhe garantia que, se conseguisse enxergar, poderia fazer muitas coisas com as quais sonhava.

Angel, o nome do rapaz, deixou-se afinal seduzir pelo sonho, pois lhe falavam de coisas belas que até então só podia imaginar- uma roseira cheia de flores amarelas, uma vinha carregada de pinot noir, o vento batendo nos trigais, a água caindo de cachoeiras, o azul do céu no verão que naquela região tem dias bem longos, as estrelas brilhando no infinito... e um certo rosto de mulher.

A cirurgia aconteceu. Durou horas, mas foi um sucesso. O médico e sua equipe ficaram muito felizes. O paciente, não. Assim que começou a enxergar, espantou-se com o mundo que via. O que ele imaginava antes parecia-lhe muito melhor. Fez então algo que pareceu uma loucura: pediu ao médico que desfizesse a cirurgia.

O doutor D’Argent argumentou que seu juramento a Hipócrates o obrigava a manter-se a favor da vida, e aquilo que Angel pedia tinha jeito de morte. Mas o jovem tanto insistiu, que o caso chegou ao Tribunal de Paris e, depois, ao Vaticano. E não é que após anos de batalhas jurídicas o paciente ganhou a causa? Feita a reversão da cirurgia, tranquilizou-se nas sombras e naquilo que alimentava a sua imaginação. Entrou para a história como o cego que não quis ver.

Como se pode avaliar, os ditados populares repousam algumas vezes em fatos que habitam o cotidiano de forma concreta. Em muitas línguas, diz-se que “mais cego é o que não quer ver”, ou seja, aquele que tendo diante de seus olhos a realidade mais flagrante, nega-a, embora a enxergue, porque ela contraria seus sonhos ou ilusões.

Esbarramos aqui na área das emoções. Porque, de fato, o real difere segundo o olhar de cada um, varia de acordo com os sentimentos. Quem nunca encontrou pessoas que enxergam mas não veem a realidade mais explícita porque ela briga com seus desejos?

Por essas e outras, a escritora e psicanalista Anais Nin (1903-1997) cravou uma frase antológica: “Não vemos as coisas como são e sim como somos.” Ou seja, são as cores de nossa alma que pintam as coisas que vemos.

De resto, a ilusão é uma emoção perigosa que pode distorcer de forma radical o olhar. Estejamos sempre atentos, lembrando o insuperável Machado de Assis, para quem “é sempre melhor cair das nuvens que do quarto andar.”


 

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