Olhos de VERdade

Por: Ligia Freitas

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Multicolorido é o preto, o branco, o amarelo, o pardo, o indígena. Não existe maniqueísmo: herói x bandido, todos são capazes de amar e odiar com a mesma força e horror.

Há quem ame numa redoma e não conhece o chão frio por baixo de um cobertor, não percebe as injustiças que se perpetuam no tempo, feito uma engrenagem que desconhece qualquer pedido de louvor.

Como é urgente ver essa roda quicando ladeira abaixo e degolando os excluídos da sociedade. Eu disse “ver”, basta enxergar, tampouco acredito agora em mudança.

Este é o momento apenas de reconhecer o sistema de palco (holofote) e plateia (povo) em que vivemos.

Por isso, também é urgente que assistamos ao filme “Olhos que condenam” da cineasta Ava Duvernay, que muito mais do que contar a história de cinco jovens negros presos injustamente por um crime que não cometeram, relata o racismo escancarado e sistêmico nos EUA.

Mas infelizmente não precisamos ir para Nova York para encararmos essa mesma realidade, de acordo com o Infopen (Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias) quase dois terços de toda população carcerária brasileira é negra.

Há quem conclua: os negros são mais criminosos.

A esse cidadão pergunto se vê com olhos de VERdade. Primeiro se pinte de azul e veja se vira tucano, depois se pinte de vermelho e veja se vira petista, se nada deu certo se pinte de preto e veja se fica mais realista.

Desculpe-me, mas sua opinião é fruto daquela engrenagem engessada voltada para um só lado, e nesse caso, é realmente penoso mudar a direção.

Peço-lhe apenas um favor, desça os degraus do palco e sente na plateia, ao lado daquele cheiro do ralo que engole a humanidade sem dor.

Olhe de baixo para cima. Agora é que são elas, quero saber se mudou seu refletor.

Não me diga que vai precisar de um oculista, que seus óculos ficaram escuros e que lá fora o tempo fechou.

Eu sei, a vista do mirante é mais bonita, mas tudo que enxerga lá de cima é vida, não é resto, não senhor.

 

 


 

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