Um encontro

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Chego e nossos olhos se cruzam.
Silêncio.
Ele aponta o local onde devo me acomodar.
Fecho os olhos. Não gosto de vê-lo preparar-se.
Eu sei, ele me fará sofrer, mas não esqueço que a escolha foi minha.
Eu o procurei, entre tantos outros.
Abro os olhos e o vejo se aproximar. Cada vez mais.
Sua cara aumenta. Ele está bem perto!
(É um pesadelo!)
Fecho os olhos e sinto sua respiração na face.
Ele também está nervoso, posso perceber.
Abro a boca, irrefletidamente.
Engasgo, mas ele não se abala. Continua.
Tento gritar, afastar suas mãos.
Em vão.
Penso em plantas, flores, meus filhos.
Penso no desejo de ilha distante e deserta.
As imagens me despertam, mas não afastam o medo.
Minhas pernas tremem.
“Calma!”, penso. Ele se afasta. Por momentos.
Me deu as costas.
Imediata e rapidamente se vira.
Geme.
Limpa a garganta e continua.
Perdi o momento da fuga, percebo!
Continuo com os olhos fechados, quero gritar!
Não posso!
Minha impotência me irrita.
Abro os olhos e pálida de horror, torno a me entregar.
Silêncio.
Assim deve ser na sepultura: será que morri?
A saliva escorre pelo meu queixo.
Queixo. Dou gemidos.
E ele, impassível.
Decido.
Não volto mais aqui.
Dentistas!
Eu os detesto!  

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