O fértil milagre

Por: Sônia Machiavelli

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Ernest Hemingway foi homem intenso, jornalista incisivo, escritor de recursos extraordinários que usou a imaginação e a linguagem de forma arrebatadora. E seus relacionamentos amorosos foram tumultuados. Ele seguiu à risca o conselho que lhe deu Scott Fitzgerald: “Você vai precisar de uma mulher para cada livro que escrever.” Ele escreveu muitos.

A legião de leitores que conquistou é enorme. Por isso, gente da geração pós-guerra terá na ponta da língua alguns dos títulos que o consagraram: “O Velho e o Mar”, “O Sol também de Levanta”, “Por quem os sinos dobram”- entre outros que no conjunto lhe garatiram a conquista do Nobel de Literatura em 1954.

Como ficcionista fez do idioma uso magnífico que lhe permitiu algumas vezes reunir em única frase uma história. Disso é exemplar o conto que construiu com apenas seis vocábulos, respondendo ao desafio de colegas reunidos em um congresso na Cuba que ele amava tanto quanto a Espanha. O mar e as touradas o seduziam. Pois na ilha escreveu o que ele próprio consideraria sua melhor narrativa: “For sale: baby shoes never worm” / “Vendem-se: sapatos de bebê, nunca usados.” Fiquei impressionada ao ler pela primeira vez, dias atrás.

De início fui arrebatada pela força da imagem de sapatinhos de bebê, que embora nem sejam mais usados, pois as roupinhas de recém-nascido mudaram com o passar o tempo, ainda se mantêm muito fortes em nosso imaginário. Tanto que ilustram cartões, são adornos em porta em maternidade e, para as mais românticas, um par embalado numa caixinha revela ao futuro pai o milagre da vida que começa. Lendo a narrativa tão curta, eu via pares de sapatinhos de tricô em cores pastéis numa gaveta ainda suavemente perfumada. E o detalhe das fitas de cetim usadas para amarrá-los aos tornozelos delicados pareciam me acenar.

Depois, várias coisas pipocaram no meu espírito. Por que os sapatinhos não tinham sido usados? O parto não teria chegado a termo? O bebê havia nascido mas não sobrevivido? Ficara doente logo depois ? Fora bem cuidado? E sua mãe? De que tamanho seria sua frustração? De que forma isso impactara o pai? Pensava na dor profunda de uma mãe que não pode agasalhar os pés de seu bebê com sapatinhos tricotados por suas mãos ou escolhidos com carinho numa loja. E por aí afloravam pensamentos e sentimentos, gerados e movidos por seis palavras que por sua potência imagética construíam um recorte de existência que pulsava. Havia dor, vácuo, morte, tristeza, ausência e muito mais dentro de mim.

Foi então que resgatei Proust a falar da capacidade de comunicar do escritor e de sentir do leitor. Para o grande romancista, ler era “o fértil milagre da comunicação realizado na solidão. ” Um milagre, acredito, que credencia quem lê a acessar as camadas mais profundas de uma simples frase e exercitar a compaixão, condição de sentir as emoções do outro e ampliar assim a sua humanidade.

Dedico este texto a todos os que escrevem neste caderno e aos leitores capazes de usufruir de momentos milagrosos que realçam nossa humanidade. É também para isso que a literatura existe.
 

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