Ela enxergava e ensinava poesia

Por: Felínio Freitas

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Escrevendo um texto sobre mediação de leitura e sobre o percurso poético, afetivo e profissional do mediador de leitura, me deparei com o questionamento sobre qual teria sido minha/meu primeiro mediadora/o de leitura. Concluo que quem mediou os primeiros livros, histórias, de forma intuitiva/amorosa/prazerosa, foi a minha avó paterna, Petronilha Guimarães, que sem “pedagogizar”/sem ter a intenção de catequizar/de dizer que “aquilo era “útil”, de moralizar a leitura deixou a “sementinha dos livros” e a sede pelo conhecimento em minha vida. Depois vejo que essa tarefa foi continuada pela minha mãe e por alguns educadores que cruzaram meu caminho.

Minha avó dizia nas entrelinhas sobre o fascínio do conhecimento, de outros mundos/pessoas/lugares/vidas que existiam além da Caatinga da Fazenda Calderãozinho, do Sémi-árido baiano. Nada era forçado, ao contrário do processo escolar das leituras e suas imposições, que acabam criando um não prazer/ falso gozo com a leitura (lemos mas não lemos. Só engolimos palavras. Repetimos frases).

Dizer palavras para ela era chamar a atenção para o mundo: para as “pequenas” coisas da vida. Minha avó tinha uma mala recheada de calendários, almanaques, livros, bugigangas de viagens e muitos outros mimos. Ela falava de histórias de assombrações, de cantigas de roda, sobre as flores e plantas do seu pequeno oásis no fundo do quintal. Ela lia o mundo em voz alta para ressignificar a vida, para dizer a vida; e trazia a sensação de mundo, de estar no mundo e tentar entendê-lo.

Na Bahia, para quem morava na zona rural, antes de leitor de livros físicos, aprendíamos pela oralidade/mediação e leitura de mundo. Tudo isso estava presente nos cantos, nas rezas, nos sambas de roda, nas cantigas do Candomblé de Caboclo, nas cantigas das festas juninas, no jeito de colher o feijão, de tanger a boiada, de ouvir os passarinhos...

Livros em casa eram raros, mas via como os poucos que passavam por ali eram tratados e cuidados com zelo e devoção. Diante dessa escassez, embalagens de latas de óleo, bula de remédio, latas de querosene e quaisquer papéis impressos serviam para incentivar/criar narrativas para diversas histórias. O único livro a que crianças da região tinham acesso era o didático - que trazia alguns trechos de histórias, como por exemplo, “Marcelo, Marmelo, Martelo”, de Ruth Rocha. Bibliotecas não existiam nem nas escolas da cidade, nem na comunidade rural onde morávamos.

Desde menino, entre uma torra de café no terreiro, a raspagem da mandioca ou a colheita do feijão fui aprendendo que ouvir era o segredo da vida - mais do que falar. Os silêncios da caatinga, do vento, da cancela batendo, da chuva caindo, da minha mãe lavando roupa no lajedo eram mais importantes do que a fala humana cheia de ego/fúria... Silêncios me atraíam, assim como as “pessoas silenciosas”. Depois, encontrei esse silêncio e essa “delicadeza” da beleza do mundo, das relações humanas e sua complexidade nas páginas dos livros.

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