Reencontro

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

401837

Moravam perto, quase vizinhos e se conheciam desde muito pequenos. Enquanto todas as outras turmas brincavam em grupos, eles se isolavam, sentavam sob as copas das árvores e ficavam horas, lado a lado, se olhando, conversando sobre passarinhos, frutas, os companheiros, livros. Não se tocavam, mas era como se houvesse corrente elétrica ligando os dois. Naquela época não havia perigo de ataques traiçoeiros de adultos. Antes, os mais velhos zelavam pela integridade dos menores. Nas férias passavam juntos toda a manhã, voltavam à tarde depois de escovar os dentes após o almoço, as mães levavam o lanche no espaço onde jogavam bola, que todo dia, à tarde tinha partida contra times das vizinhanças. Durante as aulas, iam à escola que ficava do outro lado da cidade, nela cada qual ia para sua classe. No recreio, separados pelas determinações da diretoria, ficavam se olhando de longe, como que vigiando as mútuas atitudes. Nunca brigaram. Ele só olhava para ela; ela só olhava para ele. Terminavam as aulas, iam para casa, almoçavam correndo, faziam as lições e iam juntos para o campinho de futebol, onde se sentavam sob as copas das árvores e ficavam lado a lado, se olhando... Cresceram muito rápido. Um dia acordaram. Ela, com dezesseis anos, ele, com dezenove. O pai dela implicou com ele, que era de família simples, sem dinheiro, de pais trabalhadores, mas pobres. Proibiram os encontros, antes que eles se beijassem pela primeira vez, o que só aconteceu quando ele foi embora da cidade, em busca de fortuna, que ela nunca soube que ele conseguira. Ela soube que ele, proibido de voltar à cidadezinha, estudou, seguiu carreira, fez bom pé de meia nas terras distantes para onde foi mandado. Ela continuou na cidadezinha e foi informada pelo pai que ele, o namorado, que atravessara o oceano, havia se enroscado nas ondas dos cabelos de morena estrangeira. (Ela era loira). Mentira, mas não tinha quem o contradissesse. Ele se casou, sim, mas muitos anos depois, quando não teve mais notícias dela. Ela, ficou solteira. Dedicou-se à família. Se transformou na tia que acompanhava as sobrinhas. Na tia que fazia enxovaizinhos de bebê. Na tia que acudia os mais velhos doentes. Na tia que quebrava todos os galhos, de todos os sobrinhos. Tinha suas predileções: a sobrinha do meio, que volta e meia a levava para a cidade grande, onde, um dia, ela ao ler um jornal, fechou-o rapidamente e perguntou pela lista telefônica, que lhe foi dada. A sobrinha viu-a procurando algo. Solícita ofereceu ajuda que ela recusou. Estava excitada e aflita. Pediu licença, falou ao telefone baixinho, viram-na sorrir e rir. Coisa rara. Delicadamente, até gargalhou discretamente. Estava feliz. No dia seguinte foi ao cabeleireiro, passou batom, comprou roupa nova e pediu que a sobrinha a levasse à Confeitaria, onde entrou lépida e apressada. A sobrinha viu que ela foi recebida por senhor bem apessoado, de terno, gravata, bigode branquinho mas, discreta, voltou para casa. Era o amor de outrora que ela reencontrava, cinquenta anos após a separação. Ele ficara viúvo – esta a notícia que ela lera no jornal, como legenda sob a foto da família dele, mas reconhecera a voz da amada pelo telefone. Agora estavam juntos. E ninguém mais os separaria, decidiram. Ainda há a história do casamento. Mas ela fica para outra vez...
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras