Telegrama

Por: Sônia Machiavelli

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De vez em quando sinto vontade de bisbilhotar guardados, à moda da Lúcia Brigagão com os dela, tornados temas e motivos de crônicas singulares. Que o digam os leitores dos seus textos para este caderno, tantas vezes inspirados na poesia inestimável de cartas, bilhetes, recortes de jornal ou revista, anúncio de evento, fotos, folhas e flores secas, fitas. Tudo lembranças físicas que têm o condão de ressuscitar aquelas regiões da memória afetiva que o tempo não deleta.

Então, na sexta-feira, lá fui em busca do meu baú, saudosa de um pedacinho de pano chamado talagarça no qual aprendi com a professora Alzira, no então IETC, a fazer uns pontos de bordado. Nunca usei essa habilidade, mas só de lembrar o paninho desfiado resgato seu cheiro, o rosto das colegas na sala de aula, nossas risadas contidas enquanto trocávamos segredinhos ou comentávamos ingenuidades. Como a cor rosa do Fusca de outra professora.

Não achei a amostra de bordado. Em compensação, encontrei um papel já coberto pelo sépia do tempo, mas ainda intacto na condição de ser lido. Dobrado em quatro, formato retangular tipo 12 x 3 cm, ele me instava a abri-lo. Foi o que fiz e assim como aconteceu àquele sésamo mínimo a movimentar a pedra que impedia ao olhar os tesouros de uma gruta, ele me mostrou um tempo que não passou e resiste no meu coração. Era um telegrama.

Já tinha me esquecido por completo dessa forma de comunicação. Encontrá-lo no meio de bugigangas, mais exatamente entre as folhas de um calendário que na parte superior estampava uma marca de pneus, me levou a recuperar fatos e sentimentos do início dos anos 60. A mensagem dizia assim “parabens aniversário vg felicidades pt madrinha rosinha pt presente lápis cor.”

O estilo era econômico porque cada palavra tinha um custo. Então, a mensagem deveria conter um mínimo de vocábulos (sem acentos) e um máximo de informação. Para não haver confusão de sentido, vg indicava vírgula e pt ponto.

Dentro de mim a menina ainda vibra com o telegrama e a caixa de lápis de cor que receberia à noite. Vejo os 36 lápis na grande caixa amarela onde estava escrito Johann Faber. As pontinhas finas, todas do mesmo tamanho, acenavam cores maravilhosas. De cara me apaixonei pelos azuis. Quantos azuis existiam! No verso da caixa, números nomeavam tons. Cobalto, marinho, mediterrâneo, turquesa... Nem dormi de tanta alegria. Por muito tempo não me permiti usar aqueles lápis, com medo de que as pontas quebrassem ou se desgastassem.

Nem sempre porém os telegramas, no interior daquele Brasil precário, onde telefone era raridade, levavam cores e alegria às gentes. Acho até que isso, a alegria, era exceção. Ainda me lembro das mãos trêmulas de minha mãe abrindo telegramas que anunciavam morte de parentes e acinzentavam a nossa casa por dias a fio.

Voltei com o meu telegrama para o baú, onde vou mantê-lo neste tempo onde o papel como suporte para a escrita está desaparecendo. Um dia os bisnetos, já muito distantes até do Telegram, talvez o examinem com curiosidade máxima. Assim caminha a humanidade.

Ah! “onde quer esteja vg obrigada madrinha rosinha pt”

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