Cartas de amor

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Conheceram-se bem jovens e, imediatamente, foram enlaçados pelas suaves amarras do amor. A identificação entre eles foi crescendo com o tempo, como as plantas crescem sob a chuva e o sol, num terreno fecundo. Dias felizes estes, quando um sentimento nobre une duas pessoas, num enlevo sublime. Separaram –se pela primeira vez quando ele foi estudar em outra cidade. Cartas de amor os mantinham unidos. Podiam ser ridículas como disse o poeta, mas quem nunca escreveu cartas de amor ou sonhou com elas? A jovem, muito carinhosa, iniciava suas missivas com a invocação – “meu benzinho” e desenrolava frases cheias de ternura, com toda a força de seus sentidos. A resposta vinha preenchida com o ardor e o ímpeto da mocidade, incluindo planos para quando ele voltasse a sua cidade natal e se casassem. E foi isto que aconteceu. Viveram este amor por muitos anos, juntos, em harmonia, contemplados com uma linda família, sempre num caminho ascendente de progresso e realizações.

A velhice os encontrou saudáveis, mas como a finitude humana é real, ela foi acometida de doença mortal e foi-lhe ceifada a vida. A sabedoria adquirida com a idade o tornou uma pessoa sensata, aceitando as imposições que a vida faz. Passado um certo tempo, a solidão deitou seu manto sobre sua casa, insinuando-se em seu coração. Os dias, ele os passa em meio aos familiares, mas quando fica sozinho e a cor da noite encobre a luz, sente uma contundente saudade dela e a tristeza apodera-se dele. No isolamento dos seus aposentos busca por um movimento, por um som amigo, mas percebe apenas um silêncio absoluto, quando parece que até os mosquitos foram dormir, confidenciou-me ele.

Não tem coragem de reler as cartas de amor por eles trocadas e que ela guardou a vida inteira, num pequeno baú com chave. Tem receio de que suas lágrimas possam inundá-las e ele perca para sempre o amor nelas impregnado.
 

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