Nem Puta, Nem Santa

Por: Ligia Freitas

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Fui canonizada em 16/06/2016. A data é bonita, cheia de seis até combina com Santos Reis. Antes disso ninguém me notava, era apenas uma mulher comum e aparentemente emancipada, do século XXI.

Eis que naquela data nasceu meu filho e com ele a língua afiada do mundo: Aonde ela vai? Quem será que está com o filho? Por que ela gritou com a criança?

A exigência em relação à minha maternidade foi tão preocupante para a sociedade, que eu cheguei à inevitável conclusão de que a partir do momento em que pari fui erguida à condição de Santa.

Ser Santa não é tarefa fácil, é ser perfeita, quadradinha, feito um pote de margarina “sorrisos à mesa”. É duro feito uma pedra de gelo, que nos deixa engessadas, quando na verdade, a essência da mulher é livre como uma cachoeira.

O passado explica os muros altos construídos sobre nós. De puta à Santa, passamos por vários papéis de autoprivação.

O grito da independência foi lançado, o mundo abriu suas comportas para a revolução política, social, cultural e sexual feminina.

No entanto, a mulher contemporânea vive um descompasso entre a conquista pela liberdade externa e a desconexão interna. Basta olharmos a culpa materna que persiste e a mãe santa que resiste dentro de cada uma de nós.

Deixamos as vozes dos outros baterem em nossa mente (de gelo), porque estamos presas nesse padrão tóxico da perfeição.

Depois de emancipadas, precisamos ver que o inimigo externo não mais existe e que os outros somos nós. Nós, as Mulheres Cachoeiras, de nado livre ao encontro da nossa verdade, assim a pedra jogada pelo outro atravessará nossas águas intactas e ilesas.

É, a revolução feminina foi de fora para dentro e não de dentro para fora. Não é simples estalarmos os dedos e mudarmos a nossa história interna, deixarmos de lado quem a gente é de verdade para nos transformarmos quem deveríamos ser.

E foi assim que pouco a pouco evoluímos por fora e nos afastamos a cada dia da nossa essência de dentro.

No livro “Mulheres Que Correm Com Lobos”, da escritora Clarissa Pinkóla Éste, aprendemos que precisamos nos aproximar ao máximo do nosso instinto selvagem, não no sentido rudimentar: deixemos o salto e voltemos às cavernas.

É necessário resgatar a energia vital instintiva que existe dentro de cada uma de nós. A mulher tem ciclos menstruais, carrega um feto no ventre, dá a luz, amamenta; quer algo mais natural do que isso?

A mulher sabe quando é hora de plantar, de regar e de colher. Entende quando precisa deixar algo morrer. E a mulher do século XXI deixa essa mulher interna viver?

Quando engravida foca no enxoval do bebê, atenta-se ao que tá escrito na internet, nas redes sociais, na TV. Escuta tudo que os outros falam, e ela mesma fala o quê?

Há tempos, deixei minhas algemas de lado. Mas vira e mexe me pego presa novamente.

Espero um dia nadar pelada numa cachoeira, para me sentir parte do mundo, e não refém. Nem puta, nem santa, o que me define só eu sei, mais ninguém.

 

 

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