Um encontro

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Quando nossa Língua maravilhosamente portuguesa sofreu suas últimas alterações, como na acentuação de certas palavras por exemplo, fiquei tiririca. (Tiririca: abespinhada, atrabiliária, azougada, iracunda, ou seja, fula e indignada.) Meia dúzia de palavras, você fala inglês, senão o de Shakespeare ou Milton, ou Byron, até o do Thomas, meu neto de cinco anos. Não tem acentos, a estrutura da língua é simples, os verbos não dão dores de cabeça. O Swahili ou Suaíli, língua bantu, muito mais fácil ainda, acabei de saber. Tem influências árabe, inglesa, francesa, alemã e até portuguesa. Não há conjugações verbais, e se usam prefixos para expressar o tempo verbal e os sujeitos. Bem diferente do Português, Francês, Espanhol e Italiano, com missões de botar a gente sentada no banco escolar e fundir a cabeça... E nossa “Última flor do Lácio” ali, a esbanjar beleza, ritmo, cadência, lirismo...

 “Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem achei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê. Quem sente não é quem é.” (Fernando Pessoa, Não sei quantas almas tenho”.) É lindo, não é? A gente fecha os olhos, sonha, tem dor de estômago, lembra do que está escondido no fundo da alma, arrepia. E dá um jeito de voltar à Terra, senão pode dar B.O...

A Globo retransmite seus programas para a Europa, através de Angola, onde se fala uma versão da nossa língua. A estrutura é praticamente a mesma, mas algumas palavras, não. Nos intervalos dos programas entram comerciais editados lá e, embora brasileiros compreendam perfeitamente apesar do forte sotaque, muitas palavras, a exemplo de Portugal, têm sentido diferente. Alguns palavrões nossos, são linguagem comum, corrente e nada pornográfica ou indelicada. O comercial que oferecia as fraldas Pamper, por exemplo. Ligeiro breefing: bebê aparece engatinhando na tela, sorrindo, quando você sente a compulsão de levá-lo para casa, entra a voz suave de mulher com aquele forte sotaque português, onde o s tem som de ch, com a mensagem: “Fraldach Pamper! Para que o c*zinho de seuch putoch fique sempre frechquinho!” Confesso, quase caí da poltrona... Tradução: para que a bundinha dos seus filhos pequenos fique sempre fresquinha e seca...

Você sabe o que é “Meter o rossio na betesga”? Algo como pôr São Paulo dentro de Rifaina... Rossio é a rua mais curta de Lisboa, e Betesga uma grande praça. Algo como colocar muita gente dentro de um lugar pequeno ou muita coisa num recipiente de parcas dimensões... Desafiar conteúdo e continente. “No tempo da Maria Cachucha” , sabe o que é ? Designa coisas tão antigas, mas tão antigas, que é impossível precisar quando foram feitas ou aconteceram. (Do tempo da Zagaia, por exemplo...). “É a banha da cobra!” É aldabrice ou expressão usada quando alguém tenta vender algo falso como verdadeiro – idéia ou objeto. Há muitas, muitas outras. Há o “chegar a roupa ao pêlo”. Ou “Dia D/ Hora H”. o “Línguas de Perguntador”. Fica como sugestão de pesquisa para o leitor curioso. Falta pouco, vê-se, para nos entendermos, pelo menos através da linguagem...
 

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