Escritoras fem , pl

Por: Sônia Machiavelli

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Com o raiar do século XX, instalou-se no Ocidente lenta mas constante mudança de costumes com a reorganização da vida social e familiar, a entrada de maior número de mulheres no mercado de trabalho, e muitas outras conquistas, como o direito ao voto feminino. Começava ali a gênese da quebra de um paradigma, aquele que fazia da diferença entre homens e mulheres o fundamento da desigualdade e da hierarquia. O processo foi longo mas contínuo. E ainda estamos reivindicando a igualdade como o reconhecimento das diferenças sem hierarquia. Essa é uma revolução em andamento, sujeita a ataques de muitos lados.

Na literatura e na dramaturgia, por séculos foram os homens que escreveram sobre as mulheres. Só no final do XIX aparecem as Brontë, a Jane Austen, aquela misteriosa Emily Dickinson, mulheres que passam a escrever sobre si mesmas, outras mulheres, homens, relações sociais e experiências; que ousam contar histórias segundo seu próprio olhar, assumindo o lugar da fala. Décadas depois irromperiam Simone de Beauvoir na França, Virginia Woolf na Inglaterra, Elizabeth Bishop nos EUA, Margareth Atwood, no Canadá. No Brasil, Clarice Lispector, Ligia Fagundes Telles, Adélia Prado, Nélida Piñon, Cora Coralina. E muitas outras.

Entre tantas, me ocorre o nome de Rachel de Queirós que em 1927, aos 18 anos, publicou “O Quinze”, romance seminal do Regionalismo Brasileiro. Um vizinho a desafiou para briga, ao comentar que era impossível a uma mulher escrever história como aquela. Atribuiu a autoria ao pai da moça. Cinco décadas depois, a cearense seria a primeira a ocupar cadeira na Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897. Pioneira, Rachel abriu um caminho.

Em Franca, outra pioneira, Evelina Gramani Gomes, deixou sua marca nos romances que escreveu nos anos 50. Seu nome hoje é verbete no importante dicionário crítico de Nelly Novaes Coelho. Francanas que escrevemos, devemos muito a Evelina. Devemos a abertura de um caminho que trilhamos ao nos apoderarmos de nossa vocação para a escrita. Ela foi corajosa e destemida ao lançar-se com temas realistas, numa Franca que era então ultra conservadora. Nas suas pegadas vieram as que hoje povoam o cenário das nossas letras. Como Regina Bastianini, cuja poética atinge às vezes as fímbrias da metafísica e cuja prosa se tece com o olhar compassivo pelos seres humanos que sofrem.

Ter meu nome escolhido para estar ao lado delas, Evelina e Regina, no Festival Literário de Franca, dentro da programação Damas da Literatura Francana, criado pela psicanalista, escritora e acadêmica Maria Luiza Salomão, foi uma honra e representou um compromisso: o de batalhar, no limite de minhas condições, para que a voz feminina ocupe cada vez mais espaços na literatura que vamos construindo em Franca. Porque apesar dos avanços, ainda somos poucas: apenas 15% do contingente de escritores deste país que tem majoritária população feminina .

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