Os avós

Por: Sônia Machiavelli

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As avós cortam unhas frágeis com tesourinha miúda. Passam merthiolate-que-não-arde nos joelhos ralados. Ensinam a rezar o “pai-nosso”. Fazem bolinhos de chuva em dias de sol. Levam ao cinema e ao circo quando há. Às vezes arrebentam pipoca e explicam o que é piruá. Os avôs costumam contar histórias que dormitam na memória. Nelas tem carrinho de rolemã, bola de meia, bolinha de gude, matinê, namoradas. O avô é o pai do pai. Ou da mãe. A avó é a mãe da mãe. Ou do pai. Eles vêm antes, preparam caminhos.

Avó, avô. Que sorte a das crianças que podem conviver com eles. Salvo raras exceções, o sentimento que dedicam aos netos é constituído de substância um pouco diferente daquela que define o amor de pais. Tem mais doçura, menos estresse, ansiedade zero.

Até certa idade, meninos e meninas estranham que os avós tenham sido crianças. Por isso é preciso rememorar. Foi para tal que a professora Alessandra nos convidou a ir à sala do 4° ano A da Escola “Toulouse Lautrec” na última quarta-feira. A proposta, mostrar como era o mundo lá atrás. Sentados em círculo na grande sala, todos tinham aos seus pés os netos. Eu tinha o João. Luzia, minha amiga de infância a quem não via há muitos anos, tinha o Gustavo. Que graça estar ali naquele instante, pensei. E pedi o telefone da Luzia. Temos muito a rememorar...

Então começamos a falar. O mundo daquele tempo era mais difícil- e todos ilustramos a fala com nossa experiência. O telefone custoso demorava horas para colocar dos dois lados da linha pessoas que precisavam se comunicar. Foi o que contou Maria Helena sobre o tempo de namoro com Hélio Rubens. O correio elegante, cartão onde moço escrevia galanteios pra moça, era algo remotamente parecido a uma mensagem digital, lembrou Nisa Neila. Bom mesmo era o footing, moças em fila dupla rodando ao redor do Relógio do Sol, e moços em outra fila circulando em sentido contrário- descreveu a avó que vestia verde. Para quê? Para encontrarem seu par, ora! Coisa de namoro. Foi assim que um senhor alegre conheceu sua mulher, ambos ali presentes com as duas netinhas.

Entre lembranças inocentes de pão e leite deixados à porta das casas na madrugada, foram surgindo outras notícias da Franca dos anos 50. Uniformes e desfiles de Sete de Setembro. Velhos cinemas do Centro- São Luiz, Odeon. Os tipos populares- Maria Capotinha, sempre de capote, fizesse frio ou calor. Geraldo Pelotão, cujo apelido vinha de ‘pelota’ e não de vocabulário militar, como acreditava a garota de cabelos crespos. A língua é dinâmica e sentidos desaparecem- “pelota”, quase ninguém diz mais.

E por aí fomos, resgatando imagens resvalantes por língua e sonho. Duas horas passaram num triz. Porque entremeando histórias, o professor Pedro cantou conosco clássicas canções de outrora. “Carinhoso”, por exemplo.

O passado retomado foi lançado no ar e apanhado por meninos e meninas interessados pelo mundo que recebeu os avós, acolheu os pais e, agora, transformado, é deles, que têm a obrigação de deixá-lo melhor. Tem coisa mais importante? Tem não!


 

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