'Na Correria'

Por: Janaina Leão

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Tenho amigos com quem não converso mais pois já sei o script de cor: “tô na correria” eles dizem: parece até call center ( risos)- são robóticos. Deus que me livre dessa doença da correria! Essas pessoas só param para tirar selfie, algo que eu critico ferozmente e vou explicar o porquê do meu ranço com o famoso “biscoiteiro”, ou “escravo de likes”.

Pra mim é igual consumir aqueles salgadinhos que parecem isopor amarelo que vendia na cantina da minha escola- é o “gosto do cheiro”- é fake food. O biscoiteiro é igual: geralmente tem tanto filtro na foto que ele posta que quando você o conhece pessoalmente parece que ele envelheceu dez anos em uma hora. Não é a mesma pessoa! É um pavão virtual, que na vida real vira garnizé, sabem?

Ele jamais revela a face verdadeira pois está cada dia mais distante de todos e mais mergulhado em si através da tela de silício – a que tem os celulares, computadores e outros espelhos - oferece uma segurança enorme a quem deseja tal perfeição.

Outra coisa que falta ao biscoiteiro original é empatia. Ele geralmente não se mistura com a miséria humana e torce o nariz para tudo que o condena em seu infinito contemplamento: ensimesmado... Ele está andando e cagando para a Amazônia: desculpem o palavrão.

Voltando para a correria: vocês ao menos sabem para onde estão correndo? Fico me perguntando. Não vejo congruência em quem pratica meditação e me diz que está nessa pressa. Eu que nunca pratiquei lhes digo – respirem!

Meu avô costumava repetir uma frase quando dirigia o Chevetinho rumo a roça:

- Quem tem pressa morre cedo, minha fia!

E a gente ia pra Capetinga MG a 60 km por hora. A viagem que hoje eu faço em meia hora de moto, meu avô fazia em uma hora e meia. Ele quase em cima do volante, tanta atenção que prestava...e eu só contemplava a paisagem, acariciando os cachorros que iam no banco de trás comigo. Eu sempre estava bolando uma forma de ficar lá para sempre...na roça, longe dessa correria urbana e dessas piscinas vazias, de dar dó tão rasas são, servem só mesmo para refletir a imagem de quem as mira. Quem é profundo e mergulha aí – quebra a cara.
 

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