Poesia para quê?

Por: Sônia Machiavelli

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Uma vez, ao ver o escritor Luiz Cruz com livro de poesia nas mãos, lhe perguntei se havia acabado de ler. Ele me respondeu que não. Em seguida acrescentou: “a gente nunca acaba de ler um livro de poemas.” Sábio, o meu amigo.

É certo que nunca terminamos de ler um livro de poemas. Isso demanda uma vida, pois lemos com nossa experiência que se adensa ao longo do tempo e muda a maneira como sentimos a existência, as pessoas, as coisas, os mistérios, as perdas e os ganhos. Por outro lado, os caminhos da leitura também mudam, pois não temos GPS que nos ensine a trilhá-los. Não há fórmula, guia, método para entrar num poema. A gente vai aprendendo enquanto lê. Ou melhor, diante de várias possibilidades de leitura fazemos uma escolha que vai nos norteando. Isso significa que neste momento exercitamos nossa sagrada liberdade.

Nada mais precioso para nós, leitores; nada mais perigoso para os autoritários que veem na literatura e nas artes em geral uma ameaça ao estabelecido. Mas quanto mais as maltratam, mais elas se fortalecem, não se deixando aniquilar. Talvez a explicação para o fenômeno esteja numa relação invisível mas umbilical entre a realidade poética e a realidade comum.

Nesses tempos marcados por pressa, imediatismo, descarte, automatismo, também por atividades predatórias que visam a desqualificar o conhecimento e a diluir a sensibilidade, ler poemas é desafio. Nossa era nos incita à velocidade, ao corre-corre, ao desatino, à busca de eficiência, produção, qualidade. Nos matamos em jornadas exaustivas durante décadas; depois todos os anos nos sepultam.

“Para sincronizar com a poesia, precisamos mudar nossa maneira de ver o mundo” , diz o crítico e escritor José Castello, em artigo publicado no Estadão. E ilumina sua análise ao escrever que “a poesia nos ensina a ver como se víssemos pela primeira vez; e o novo não está só no objeto, não está só na letra, mas se guarda também na maneira com a qual podemos acessá-la”. E conclui de forma bela e verdadeira: “Diante do olhar dos poetas, todos os objetos são novos, o mundo está sempre a renascer. Para o leitor de poemas, tudo está a descobrir, tudo está a inventar.” Enfim, “a poesia, ao abrir novas maneiras de ver, descerra caminhos alternativos, alarga o horizonte e ajuda a nos salvar da barbárie.”

Acho que nunca precisamos tanto de poesia como agora. Em busca dela estive na noite de segunda-feira na Casa da Cultura, quando Baltazar Gonçalves lançou seu livro “Tecido na Papelaria”. Antes dos autógrafos, comentários sobre literatura mobilizaram os ânimos do auditório lotado. Gente de várias tribos e faixas etárias ali mostrou-se atenta aos versos e desejosa de participar. Também me senti motivada e perguntei : “Poesia tem futuro?”

Bem depois, à guisa de enceramento, um músico, apontando três jovens que haviam semeado impressões de forma emocionada e consistente, olhou para mim e falou: “Poesia tem futuro”.

Não havia do que discordar.

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