O escambo da amizade

Por: Angela Gasparetto

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A palavra “escambo” de acordo com o dicionário, nada mais é do que a troca de mercadorias ou serviços sem fazer uso de moeda, a qual era uma prática ancestral no século VIII A.C.

Assim diz a história, mas gosto de falar do escambo da amizade. Aquele que recebemos como sinal de apreço e de simpatia.

O escambo era muito praticado na minha casa e é até hoje, mas agora de forma mais tímida, pois o país é outro e todos bem ou mal têm acesso a tudo. Ainda bem no que tange à distribuição de renda, mas que ruim no que tange ao singelo ato da troca.

Ainda quando morávamos na fazenda, lembro-me de minha mãe fazendo principalmente doces, pamonhas, bolos ou até macarronada que era prato especial na minha casa, principalmente aos domingos.

Bem, mas vamos ao escambo. Quando minha mãe fazia algo considerado especial, doce de figo, abóbora, mingau de milho verde ou mesmo cortar e dividir com a maestria de um açougueiro bem treinado o leitão recém-chegado, ela já separava a porção de cada vizinho, amigo ou parente.

Assim, era tal de sair pela colônia de sorriso pronto e pratinho coberto; bater na casa do vizinho, amigo ou parente, de modo a oferecer o melhor que tínhamos.

Eu ficava sempre observando esse jeito particular da minha mãe, mas que era também imitado por várias pessoas da nossa convivência. Então, ninguém, pessoa alguma faria um prato diferente e não dividiria com os amigos. Era de praxe. Era também de praxe se você recebesse uma dessas gentilezas, o prato não voltar vazio. Era deselegante.

Então, quando se devolvia o prato, o mesmo vinha com alguma delícia já quentinha, ou de confeitaria, ou jabuticabas que eram a minha perdição. Havia também os encontros para fazer pamonhas e biscoitos de polvilho. Era uma verdadeira festa. A mulherada trabalhando e a criançada correndo em volta.

Como se trocavam pratos especiais partilhavam-se receitas medicinais, talheres, toalhas de festas, relógios _ não eram todos que tinham um relógio em casa_ e partilhava-se principalmente a amizade, que era de um tipo solidário e fraterno, a qual não se encontra tão facilmente hoje em dia.

Além da troca da amizade, ela também trocava ovos e galinhas por quinquilharias domésticas, cortes de tecidos e uma infinidade de miudezas que não havia disponível. Meu pai trocava cavalos, porcos e ajuda desinteressada a quem precisasse. Minha avó materna partilhava seu ofício de parteira e recebia em troca gratidão e reconhecimentos eternos. Acho que recebeu por isso mais anos de vida. Morreu aos 97...

Depois que mudamos para a cidade, minha mãe continuou com o escambo e isto a tornou uma pessoa mais singular do que na fazenda e fez infinitos amigos. Com o correr dos anos e a mudança política, e até com o advento do mercado chinês, como disse, todos tem mais ou menos acesso a tudo.

Mas o escambo da amizade ficou gravado em mim. Aquele ato singelo de oferecer o seu melhor, tanto na alegria quanto na tristeza, o qual torna especial o recebedor e grato o doador.

Então, penso que você pode ter tudo na vida, mas nada supera a gratidão de inesperadamente receber por cima do seu muro um pratinho preparado pelo seu vizinho.

Aqueça o seu coração e renove a sua fé na humanidade. Eu acredito.

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