Poesia que brota na Primavera do Registro Civil

Por: Ligia Freitas

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Foram anos e mais anos sentada estudando palavras que se tornariam textos prontos ao pé da língua para passar no Concurso Público de Cartório.

Palavras, tão somente palavras me levariam à aprovação. Alcancei o objetivo e hoje sou titular de um Cartório de Registro Civil, nele praticamos dois atos fundamentais para a existência humana: o nascimento e o óbito.

Deixei minha paixão pela escrita literária de lado, peguei minhas poesias escritas desde a infância e as rasguei como quem rasga uma flor em meio ao deserto, sim, era assim que eu enxergava a poesia dentro do Direito, um sentimento solitário em meio às ruinas de apego.

Não haveria a menor possibilidade de sintonia entre Registro Civil e Poesia, não, não, esses dois elementos não se cruzariam, feito água e fogo, um apaga o outro, um não vive junto com o outro.

Mas se quem fez ambas as escolhas fui eu, será que não existe um caminho comum que germina flores para todos os lados? Será que não existe um elo de respeito, que traz a essência daquilo que eu carrego no peito?

Ora, se os dois elementos vivem dentro de mim há de haver união sim, vasculho meus compartimentos secretos e descubro o improvável, o Registro Civil e a Poesia são compadres, brotam do mesmo ventre da sociedade, transbordam igualdade e cidadania, é que se para nascer basta viver, para escrever basta ser.

Um registro de nascimento não se preocupa com o capital social da pessoa, a folha de papel é sempre a mesma, exemplo de irmandade, do amor ao próximo, uma reprodução fiel de verdade.

Um registro de nascimento não se preocupa com o dinheiro no bolso, com a quantidade de terra, qualidade da moradia ou status do moço. Chego a desconhecer um lugar mais equânime no mundo do que um Livro de Registro de Nascimento.

Assim também acontece com o registro de óbito, um documento que traz dignidade ao homem que respira, uma folha que não diferencia o rico do pobre, o fazendeiro do mendigo, o trabalhador braçal do pintor de Monalisa, o secretário da mansão do Presidente da Dinda.

No cemitério as lápides ostentam outra condição, há quem queira mostrar o tostão do bolso até onde tem osso, aparecer por parecer até na hora de perecer.

Mas se a Primavera é a estação da criatividade, a conclusão deste texto deve trazer novidade: os registros de nascimento e de óbito são pura poesia, simplesmente porque os Cartórios de Registro Civil são ofícios da cidadania.

Eles são gratuitos, porque estão na constituição, é direito de todo e qualquer cidadão. Basta nascer e morrer para fazer um registro aparecer.

Para ser poeta bastam as terras debaixo da unha, um coração batendo e uma folha de papel ao centro, é preciso também de um lápis ou uma caneta, não importa a condição social da cabeça, para escrever é preciso apenas viver, sem ter medo de morrer.

Ainda não tenho o meu livro de poesias, mas me contento com os do Registro Civil de nascimento, tenho a impressão de que é o mesmo sentimento.


 

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