O quarto do poeta

Por: Maria Luiza Salomão

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‘Adolescente, olha! A vida é bela! A vida é bela...e anda nua... /vestida apenas com o teu desejo.” (haikai, Mário Quintana)

Hotel Majestic: majestoso em tempos passados no centro histórico; travessa ao meio - duas alas e duas abóbadas - de quartos reservados aos hóspedes.

Cidades guardam sua infância nos seus centros, berços beira-rio-riacho-ribeira; ruas-raios, avenidas, periferias; capela-igrejinha-catedral em algum monte próximo; casas plantadas: umas grandes, outras toscas (que desaparecem), preservadas/assassinadas, conforme o suspeito “caminho do progresso”.

Cidades adolescem; adultas precoces, ou estagnadas à morte do que não circula, não preserva, não se reinventa. Cidades são como gentes.

O poeta habita a infância da cidade. No Majestic, em rosa antigo, quarto 217. Elevador, portaria, mumificadas: a morada do poeta imortalizou-se. Subi ao segundo andar, pelas escadas.

Majestic é todo ele, hoje: biblioteca, oficinas com nomes de seus livros, pôsteres e fotos espalhados. A travessa de nome Catavento. Um corredor de fotos de artistas gaúchos. Elis Regina, gaúcha, historiada em entrevistas e fotos, ficou vizinha do 217.

No 217: papéis amassados, lixo a meio, cama (pequenina!) de casal: de menino! Três fotos: Greta Garbo, Cecília Meirelles, Bruna Lombardi.

Todos passarão: ele passarinho ficou.

Máquina de escrever na escrivaninha, duas gavetas; três prateleiras com livros. Aquecedor: Porto Alegre faz frio! Espelho. Televisão pequena esconde o espelho. Duas poltronas, branca/ aveludada grená.

Foto do filme “O Garoto” - Chaplin e o menino; caricatura do hóspede 217, pendurada.

Mesinha encostada na parede de vidro, para nosso olhar curioso: papéis manuscritos, óculos, relógio, cinzeiro cheio, garrafa de refrigerante: ao lado do poeta, enquanto escreve, que se foi, já volta. Deixou a chave de cubo de madeira no quarto. Janela acortinada, ao lado.

Espio, olhar que atravessa o vidro, a intimidade inviolável do quarto de Mário Quintana: onde estará?

Desconfio que, do lado de lá, ele me espia também: maroto, debaixo da cama. “O passado não reconhece o seu lugar, está sempre presente.”

Ele me é presente, em quarto maior – infinitamente - no meu melhor canto da alma.

Deixo aqui página de vidro: passarinhemos.  

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