Vizinhança

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

402695

Franca, lá pelo final dos anos 50 era cidade pequena, de poucos habitantes, pouquíssimos motoristas. Carros, apenas as belezuras da Ford, da Volkswagen e da Chevrolet, geralmente dirigidas pelos moços, nem tão bonitos assim, que pertenciam às famílias que dominavam o mercado automobilístico das Três Colinas. Apenas as ruas centrais eram pavimentadas, e aquelas que distavam exatos três quarteirões da Praça N. Sra. da Conceição, para cima, para baixo e para os lados, já eram consideradas periferia que antes, como hoje, não atraíam os olhos de políticos, que apenas enxergam seus moradores como prospectos de votos e ainda assim, lá para as próximas eleições.

Quem passou a infância tendo este cenário como fundo, também se lembra que estrangeiros que descobriam o caminho de Franca eram, em sua maioria, orientais, que falavam pouquíssimas palavras em português, mas faziam contas como ábacos ambulantes. Não raro, ouvíamos outros idiomas misturados com o nosso português. Árabe, sírio, espanhol e italiano, em sua maioria. Muitos judeus contribuíam com a sonoridade da língua francana. Japoneses, só os Moricochi. Ingleses, apenas Mrs. Florence, mãe do Zazá. Nenhum francês, que me lembre.

Certo dia, num canto da Pracinha do Café, onde terminava o asfalto da Saldanha Marinho, foi morar família de gente loira, linda, pele branquinha, as duas meninas de cabelos trançados, de meia até o joelho o único menino. Formávamos estranho grupo étnico e falavam, eu acho, alemão. O pai, algum vizinho abelhudo descobriu, trabalhava numa usina, nunca soubemos se na Jaguara, Estreito ou Peixoto. A mãe, quase não saía de casa que aliás, ali pelas cinco da tarde, deixava escapar cheiro quente de coisas doces sendo retiradas do forno. Naquele tempo não tinha contra indicação alguma fazer roscas, pães recheados com meleca cheia de frutas cristalizadas e passas. Se me perguntarem, esse é o cheiro da minha infância... Aos poucos, os filhos das famílias nativas e a estrangeira se enturmaram. A mãe continuou reclusa, o pai só vinha para a cidade nos finais de semana. As crianças freqüentavam escola, mas aposto que foram embora com vocabulário pequeno – enriquecido com alguns palavrões, claro. A orientação pedagógica maior era dada pelos pais, nos finais de semana, como se fossem preceptores. Pouco conviviam conosco, que tínhamos semana cheia e final de semana livre. Nunca foram nadar no Córrego dos Bagres. E quando brigavam, faziam-no naquele idioma que nos deixava com a boca aberta e nenhuma onda cerebral de reconhecimento. Os vizinhos de casas mais próximas juravam que muitas vezes acordaram com gritos de pavor dos adultos, tão fortes, que atravessavam as janelas. Pesadelos? Nunca soubemos.

Sem despedidas, da noite para o dia, foram embora. Nunca mais aquela língua enrolada; nunca mais o desejo de entrar naquela casa que nos parecia tão diferente; nunca mais aquele cheiro de coisa macia e doce sendo retirada do forno. Nunca mais os cabelos loiros de menina trançados. Nunca mais aquele gringuinho de meias até o joelho. Por vezes as lembranças ficam tão distantes, que volta e meia, quando verbalizo tais reminiscências, minha irmã ousa perguntar se não inventei tudo isso...

Vejo filmes alemães que reproduzem cenas da Segunda Guerra, lembro-me daqueles vizinhos, cujos nomes não sei, ou não lembro. E fico aqui, me perguntando, sem conseguir respostas. Seriam eles judeus ainda fugindo das atrocidades nazistas? Ou seriam alemães fugindo de perseguidores judeus?
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras