Um homem bom

Por: Sônia Machiavelli

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“Um homem bom é difícil de encontrar”, titulou Flannery O’Connor um conto que se tornou icônico na literatura moderna norte-americana que ela antecipou. Tomo a frase para contestá-la: ainda há muitos homens bons sobre a face de nossa Terra conturbada. Um deles se foi na manhã da última quarta-feira, de forma súbita, quando começava a comemorar o milagre de estar vivo, inteiro e feliz no começo da manhã do dia de seu aniversário de 69 anos. Seu nome era José Reinaldo do Carmo.

Casado com minha irmã Sandra, ambos formavam casal que sabia superar as dificuldades diárias com tolerância, bom humor e uma consciência profunda do que significa companheirismo. No Zé, chamavam a atenção seu semblante calmo, o constante sorriso, a lhaneza de trato. Era um gentleman que destinava às mulheres e idosos deferência singular. Mantinha disposição em acolher quem dele necessitasse. Guardava uma palavra de otimismo para os que precisavam de esperança e outra de consolo para os que se sentiam injustiçados. Possuía uma solicitude que devia derivar de sua compaixão pelo ser humano. Não alterava o tom de sua voz em momentos de mais tensão e dizia coisas sérias da mesma forma como contava histórias leves protagonizadas por ele em diferentes fases de sua vida.

O que mais cativava na sua personalidade era a criança interior que ele nunca se permitiu sufocar e o tornou avô adorado pelos netos Eduardo, Guilherme, Fernando. Seu hobby eram miniaturas de aviões que o levavam às vezes ao aeroclube. Quando alguém da família viajava, já sabia o que trazer para o Zé: algum modelo diferente que o faria se lembrar do pai Alceu, piloto da aviação civil quando jovem. Cultivava muitas lembranças da Franca dos anos 50, 60- prédios, praças, pessoas. Conversar com ele representava resgatar momentos de um tempo que ficou marcado na memória como “anos dourados”.

E havia a música, que o Zé amava. Cantava “naquela mesa tá faltando ele/ e a saudade dele/ tá doendo em mim...” ,finalizando emocionado: “Ninguém mais faz música bonita assim!” Antenado com a modernidade, a Internet o fisgou desde o início. Quando se aposentou como químico na Sabesp, passou a dedicar bom tempo ao Google e a conversas com seus amigos ao redor do mundo.

Somaram mais de dezena as coroas enviadas à sala 1 do São Vicente. Centenas o número de homens e mulheres que passaram para abraçar a viúva Sandra; as filhas Tatiana, Talita e Maria Elis; o genro Leo; outros familiares. Foram emocionantes as cerimônias religiosas, desde as palavras inspiradas do padre José Geraldo Segantim ao ritual poético da loja maçônica à qual José Reinaldo pertencia e à fala metafórica dos espíritas. O Zé era realmente uma pessoa ecumênica, que respeitava todos os credos.

Garcia Marquez disse uma vez que a morte de uma pessoa traduz a forma como ela viveu. Desde as sete horas de quarta-feira, todos que conhecemos José Reinaldo do Carmo, pessoa querida, testemunhamos a verdade da afirmação do Nobel de Literatura.

 

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