Uma mulher corajosa

Por: Thereza Rici

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Joana trabalhou em minha casa como doméstica, por dez anos. Era discreta, mas aos poucos acabou se abrindo e revelou que sempre levou uma vida muito triste. Tinha apenas sete anos quando seu pai resolveu que deveria ajudá-lo na lavoura de café. Casou-se muito cedo e teve cinco filhos. Seu marido, cansado da vida dura do campo, resolveu mudar para a cidade. Foi trabalhar na construção civil; como o dinheiro era pouco, Joana passou a fazer faxinas.

Num belo dia seu marido saiu e nunca mais voltou. Sofreu muito com a perda do companheiro e tudo ficou complicado, pois tinha cinco crianças. Por isso, precisou trabalhar muito mais. Reivindicou judicialmente a ajuda do ex-marido, mas esta nunca veio. Revoltada e humilhada, resolveu esquecer o marido e a obrigação dele em auxiliá-la. E tocou a vida para frente. Para dar conta de sua prole, passou a trabalhar como doméstica. Nas horas vagas fazia faxinas em outras residências. Não tinha descanso.

Foram muitos anos de luta incessante para dar conta da tarefa. Mas, com os filhos crescidos e cada um tomando seu rumo na vida , sentia-se aliviada.

Mas havia alguma coisa que Joana escondia que eu não conseguia saber. Sempre que deixava algum recado escrito, pedindo-lhe que cumprisse a ordem, ela enrolava, dizia que tinha tido muito trabalho e por isso, não deu tempo de cumprir. Com minha vida corrida, ia embora sem pensar no assunto. Um belo dia dei-lhe uma receita para que lesse para saber se daria um bom prato. Enquanto esperava, Joana olhou para o papel em suas mãos e começou a chorar. E foi ai que descobri que ela era analfabeta.

- Joana, você não sabe ler?

Constrangida, com muito custo, respondeu que não. Confessou-me que com o trabalho na roça nunca tivera tempo de ir para escola. Sempre sofreu com a dificuldade de lidar com dinheiro e as compras, dependendo sempre da ajuda de outras pessoas.

- Joana, vamos tirar uma hora por dia dos nossos afazeres e vou ensinar-lhe a ler e escrever.

- Estou velha, minha cabeça está cansada. Não vou aprender.

- Para aprender não existe idade. Se você tiver vontade vai aprender.

Imediatamente passei a dar-lhe aulas e com dedicação e muito esforço logo estava lendo e fazendo contas.

Uma manhã Joana pediu-me se poderia deixá-la sair por uma hora. Perguntei-lhe se queria ajuda.

Agradeceu e disse: Ontem recebi a cartinha do INSS, comunicando minha aposentadoria - “Vou ao banco receber o que tenho direito “. E com um largo sorriso no rosto falou-: - “Depois de tantos anos de sofrimento, hoje estou feliz, não preciso mais ser monitorada por ninguém. Eu era cega, mas desde que aprendi a ler, escrever e contar, enxergo a minha liberdade e o direito de ser dona de mim mesma.” Rimos e ela saiu apressadamente levando no rosto o sorriso de quem soube vencer as grandes dificuldades que a vida lhe reservou.

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