Bonecas

Por: Sônia Machiavelli

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Durante escavações realizadas em 1889 para a construção do Palácio da Justiça de Roma, foram encontrados dois sarcófagos. Num deles havia o corpo de um homem adulto; no outro, o de uma mocinha. Eram pai e filha, membros de família rica que estava a serviço da nobreza em meados do século II. Na época, a descoberta despertou enorme curiosidade porque junto aos restos mortais da menina havia uma boneca de marfim muito refinada, com membros articulados.

Apesar de ser a mais famosa, Crepereia Tryphaena (este o nome da menina legado à boneca)) não seria a única a ganhar holofotes. Com os avanços da arqueologia, foram encontradas outras bonecas nas tumbas de meninas, numa evidência de que brincar de mãe foi costume arraigado no Oriente e no Ocidente. Documentos de época revelam que na Grécia, no Japão e na África, culturas distintas, havia cerimônias comuns. Quando as jovens firmavam compromisso de casamento, desfaziam-se das bonecas em rituais. As romanas as levavam ao templo e as ofereciam a Afrodite, deusa da fertilidade, pedindo sorte no amor e muitos filhos.

O mais antigo dos brinquedos infantis continua sendo o preferido das meninas, mesmo em nossa época marcada pela tecnologia. Na ONG Academia de Artes acolhemos meninas que ainda estão em plena infância e vão ganhar amanhã suas sonhadas bonecas. Este foi um desafio que me propus quando, ano passado, por ocasião do Dia das Crianças, ao sortear algumas entre as meninas, percebi que várias choravam desconsoladas por não terem sido contempladas. Aquilo me doeu. Neste outubro, mal começou o mês, armei-me de coragem, pois acho muito difícil pedir, e postei mensagem no Face falando de minha vontade de dar a todas uma boneca. Não importava que fossem usadas, pois contaríamos com voluntárias que fariam o restauro delas.

Minha surpresa foi enorme. Recebi setenta e seis bonecas novas. Mães, avós, tias, homens e mulheres sensíveis entenderam o desejo de uma criança. Uma delas mobilizou a grande família e, de uma vez, conseguiu vinte. Outra fez o mesmo com seu grupo de amigas e encaminhou dez. Depois, aos poucos, várias foram chegando com o pacote e o sentimento nas mãos. Quando postei foto agradecendo, uma mulher, a quem admiro demais por sua capacidade amorosa, teve um gesto de grande delicadeza. Ao ver que as caixas não estavam embaladas, se ofereceu para fazê-lo. Como se não bastasse, ainda escreveu cartãozinho com mensagem para cada criança.

Muito lindo todo esse capítulo das bonecas, a cereja do bolo da festa que terá mágico, pipoca, algodão doce, salgadinhos, refrigerantes. Linda também, e inesquecível, a forma como as pessoas generosas que encontrei responderam às minhas palavras de gratidão: “Sou eu que agradeço a oportunidade de fazer feliz uma menina.”

Ao ouvir isso, a que vive em meu coração deu uns pulinhos de contentamento e se permitiu umas lágrimas de cálida alegria. Por outro lado, a leitora em que me converti resgatou uma frase de Camus: “E no meio do inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim uma primavera invencível”.

Obrigada, amigos e amigas.
 

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