O sempre suspeito

Por: Thereza Rici

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A discussão estava acalorada quando entrei naquele Distrito Policial. Era exatamente dezenove horas e, devido a conversas em voz alta, olhei assustada para os presentes e pude perceber que, do lado de dentro do balcão de atendimento, o delegado tentava acomodar a situação.

Aguçando minha atenção acabei entendendo que o entrevero estava entre um casal comerciante e três homens negros, sendo que um era mais velho, na casa de seus cinquenta anos, enquanto os dois restantes eram bem jovens.

O casal também já tinha ou se aproximava dos cinquenta anos e pelo que pude entender, os homens negros eram seus fregueses.


Conforme diziam os homens negros, ao voltar do trabalho numa fazenda próxima, onde colhiam café, fizeram uma parada no estabelecimento comercial do casal, para tomar uma cervejinha gelada, mesmo porque o homem mais velho havia recebido de seu patrão, naquela tarde, um pagamento em cheque, e a cervejinha era para relaxar antes de chegarem em casa para a refeição.

Porém reclamavam que os comerciantes, ao receberem o cheque para pagamento das cervejas ingeridas, exageraram no preço e não pretendiam devolver o troco do homem negro.

Por esse motivo estavam naquele momento numa Delegacia de Polícia, onde o Delegado de plantão acabou convencendo o casal a devolver o troco do homem negro, imediatamente.

Terminada a conversa e todos de acordo, o doutor imediatamente dispensou o casal comerciante, não fazendo o mesmo com os homens negros, mandando que eles permanecessem sentados, aguardando ordem para deixar o Distrito Policial.

Os homens negros ficaram nervosos, pois como explicaram, saíram muito cedo para alcançar o caminhão que os levaria até a fazenda, onde trabalhavam o dia inteiro e com o entrevero naquela hora, estavam atrasados para chegar em casa e estavam cansados, famintos e preocupados, pois deitavam muito cedo, para garantir as energias para o dia seguinte.

Achando a atitude do senhor Delegado muito estranha, pois havia liberado os culpados e mantido os lesados, fui até ele e perguntei:

- Doutor, o senhor liberou o casal e mandou que os três homens permanecessem ali sentados. Eles estão cansados vieram do trabalho, estão sujos e famintos, por que não os libera?

- Sei o que estou fazendo. Mandei verificar a situação dos elementos, podem ser foragidos. Vão aguardar até que eu dê a ordem.

- Mas Doutor, o casal também pode ser .........

- Eles vão esperar e está encerrado o assunto.

Momentos depois, eu que já poderia ter ido embora, pois nada tinha com aquele caso, esperei o resultado da consulta.

Nada foi encontrado sobre os homens negros, eram cidadãos livres.

Deixei o Distrito acompanhada dos três homens e já na rua até como prêmio de consolação, disse:

- Ótimo, vocês mostraram ao Delegado que são limpos e livres.

Ao que me respondeu o senhor mais velho:

- Limpos, livres, mas pobres e pretos.


    

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