'Fefa'

Por: Janaina Leão

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Sei que você não gostava desse apelido, mas eu quero que você faça aquela carinha de desaprovação- sorriso de canto- assim quero lembrar de você, querida.

Te conheci através de sua irmã, nós tínhamos uns treze anos quando eu tomei o maior esporro da minha breve vida através da professora de Geografia:

- Cala a boca, menina! Você parece um homem! Você é pior que menino!

Ela gritou aquilo tão alto que a escola inteira deve ter ouvido. Para mim foi ensurdecedor- machucou.

Naquela época professor também praticava “bulling”.

Eu me calei e fiquei amoadinha no meu canto, segurando muito para não chorar. Metade da sala estava fazendo o mesmo que eu, mas essa professora especificamente me marcou pela dor, ela sempre dava um jeito de dizer que eu era “menina”.

Foi assim que a Fá chegou perto de mim no fim da aula e disse segurando minhas mãos:

-Não fica triste não, minha irmã também é.

E eu pensei:

- Aí meu Deus, o que será que a irmã dessa menina é que eu também sou?

Pois é, Fer. Você era mulher-lésbica. A Fa reconhecia... Eu ainda não.

Aquilo era um tabu, mas você já tinha namorada e seus pais sabiam, aprovavam. E eu achando que era uma extraterrestre! Mas sua família não era como a minha- Maria e Zé Luís eram pais muito amorosos.

A partir daquele dia nos aproximamos e eu tô aqui desde então. Não fui ver você no final, mas mandei minha irmã ir. Nayara também me deixou muito cedo. Havia tanta coisa pra gente fazer com elas, né Fa? Mas a vida quis assim, Fefa. Hoje abracei sua mãe querendo pegar um pouco da dor dela, sabe...Acho que perder filho é um “desparir”, ou parir pra dentro: deve doer demais, vejo todos os dias isso na minha mãe.

Mas, oh Fefa, fique bem, minha irmã certamente ja está cuidando de você. Ela te achava linda e falava que você era a cara da Lúcia Veríssimo.

Você foi minha primeira heroína, minha referência de “ mulher corajosa”, a irmã mais velha da minha melhor amiga. Lembro que assistimos a um filme juntas uma vez só, e o quanto você era inteligente, e eu era a novinha que pagava “pau” pra você ( risos). Sabe que fiz Psicologia inspirada em você? E também pelo trabalho escolar da Fa: “Como é ser gay no Brasil”. Isso em 1993 chocou muita gente no CEDE ( risos).

Você foi muito amada, e nos ensinou muitas coisas. Principalmente ser quem a gente é. Eu peito todo mundo hoje. Graças a MULHERES como você.

De onde esteja, receba minha homenagem, que mesmo tardia é de todo meu coração.


 

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