Gant, Bruges, Bruxelas

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

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Visitei Bruxelas três vezes. A primeira, lembro-me bem, na passagem para a Holanda; outra, quando a cidade foi posta como parada quase obrigatória no caminho para Bruges. Mais outra, para levar minha filha a Gam ou Gant. Ainda falta completar meu roteiro com Antuérpia, a terra considerada centro mundial dos diamantes, que tem um dos maiores portos fluviais do mundo e ainda é importante centro da moda... Chorei naquelas terras, várias vezes de pura emoção. Terra de excelentes cervejas, minha predileta é Stella Artois, chocolates famosos no mundo inteiro, como Godiva, também reinvidica a criação das batatas fritas e dos wafles. Foi a primeira cidade européia a ter wi-fi grátis nas ruas, para facilitar a vida dos turistas.

Está dividida em três regiões: Flandres, Valônia e a região propriamente dita de Bruxelas. A Bélgica possui obras de arte de “valor inestimável”. Obras de arte, possuem valor inestimável por vários motivos. Elas contam a história cultural dos homens, “condensam valores e características de uma nação, de um tempo; do estado de espírito de uma época – Zeitgeist – são precursoras de nova forma de pensar, de ver e representar o mundo.” Além disso, de outro ponto de vista, podem atuar como objetos que representam valores místicos e espirituais de um povo. Por isso, a reverência diante do David, de Michelangelo; da Monalisa, de Da Vinci; de música, como as de Villa-Lobos...

Durante as visitas à Bélgica, conheci duas das obras de arte mais consagradas da humanidade. Uma, o Retábulo de Gant, ou Retábulo do Carneiro, políptico dos irmãos holandeses Hubert e Jan van Eyck, uma espécie de Santo Graal da pintura, dizem. Tira o fôlego. Políptico é conjunto de painéis (fixos ou móveis) que formam uma cena ou tema, quando aberto ou fechado. Este, em questão, é formado por 24 painéis. É impressionante e imenso: dizem, pesa mais que um elefante. Foi terminado em 1432. Em 1934, ladrões invadiram a ingreja e roubaram dois painéis. Nunca mais ficou completo, mas bateu um recorde. É a obra de arte mais roubada, mais resiliente e resistente da História e, ao longo de 600 anos, sobreviveu a incêndios, ataques de iconoclastas, roubo durante as guerras napoleônicas e outro, na Segunda Guerra Mundial, quando os nazistas esconderam os painéis desmontados, juntamente com outras obras de arte pilhadas, numa mina de sal.

Em Bruges, capital de Flandres, apelidada propriamente de Veneza do Norte devido à grande quantidade de canais que cortam a cidade, além da beleza das construções medievais e das casinhas onde se serve chá com tortas à beira da água corrente, é possível conhecer a Madona e o Menino, escultura de Michelângelo, guardada na espetacular Igreja de Nossa Senhora (Onze-Lieve-Vrouwekerk), sob a torre de 122 metros, cuja construção foi iniciada em 1220 e demorou cerca de 200 anos para ficar pronta. A lindíssima Madona é outra obra roubada pelos nazistas e recuperada pelos Caçadores de Obras Primas.

Durante a ocupação nazista, os alemães algumas vezes exigiram que os moradores da cidade vestidos com suas melhores roupas - homens de ternos e mulheres de tailleurs com chapéus todos como era moda então, e as crianças igualmente vestidas com roupas de gala - fossem todos à Grand-Place, em Bruxelas, reverenciar os soldados nazistas, aplaudir à sua passagem, simulando grande prazer com a presença alemã naquelas paragens. Eram obrigados a sorrir para as câmeras, aplaudindo sempre à passagem dos nazis. Sobrevivieram com dignidade. Sou admiradora dos belgas. Dá para perceber?...
 

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