Ossos do ofício

Por: Sônia Machiavelli

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Muitas expressões populares vêm desaparecendo do idioma, de tal forma que as novas gerações nem entendem mais quando as ouvem. “Ossos do ofício” é uma delas: “O que é isso?”- me perguntou há poucos dias um adolescente.

O sentido profundo da frase me veio de novo à lembrança ao assistir, na última segunda-feira, a uma das várias entrevistas que vêm homenageando Fernanda Montenegro pelos seus 90 anos, completados no dia 16 de outubro. Parece que nossa cultura evoluiu e estamos afinal reconhecendo os méritos de uma vida antes que ela termine. Menos mal.

Depois de memorações emocionadas de seus trabalhos no rádio, no teatro, no cinema e na televisão, nossa artista maior disse que quando o ofício corresponde ao nosso dom, tudo o que é difícil em relação a ele torna-se, na verdade, suportável, porque nos alimentamos do que nos repleta a alma. Ela, que até aqui não viveu só de glórias e enfrentou desde jovem muitas dificuldades em seu longo percurso, sintetizou de forma clara e precisa o sentido maior de um trabalho que se realiza porque confere significado à existência.

Fernanda Montenegro enfatizou o ofício, no sentido que a palavra assume como trabalho, ocupação ou função que escolhemos porque levados por uma vocação- e há pessoas que vivem uma vida inteira sem descobrir qual é a sua.

No entanto, “ofício” também é o nome dado às folhas de papel que surgiram com a Revolução Industrial. Para que um produto fosse considerado bom, deveria ser padronizado. Como herança dos longos e irregulares rolos de pele de carneiro usados pelos contabilistas da Idade Média, cria-se o papel ofício, utilizado para todos os comunicados do escritório, espaço recém-inaugurado. Tendo por medidas 216 milímetros por 356 milímetros, acabou perdendo espaço, em meados do século passado, para o A4, padrão mais comum e barato, usado ainda em nossos dias e provavelmente até que tudo esteja integralmente digitalizado e o papel seja apenas uma lembrança ou peça de museu.

O que me ocorre dizer é que, quando foi criado, esse papel era encardido. Não havia muitos produtos químicos clareadores e a química existente tornava-se cara demais, inviabilizando o consumo. O que se usava habitualmente como alvejante era o tutano, outro nome para a medula, substância encontrada dentro de ossos e que triturada com esses transformava-se em pó clareador.

O processo era demorado e trabalhoso. Por associação à tarefa nasceu a metáfora aliterada “ossos do ofício” para qualificar as atividades que demandavam esforço e tempo para serem exercidas em sua plenitude e com dignidade.

Esforço e tempo para ir até o tutano, o âmago, a essência, extraindo o melhor. Tempo e esforço- duas exigências de todo trabalho que se queira consistente, significativo e durável para o indivíduo e a sociedade. Mas em nossa época de fluidez, pressa e instantaneidade, nem todos se dispõem a enfrentar os ônus. Querem só os bônus.

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