O prazer do esforço

Por: Maria Luiza Salomão

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E m uma entrevista, um psicanalista provecto, experiente no ofício, sábio, expressou uma ideia que guardei, antes de ser mãe. Dizia ele: “filhos criados com severidade, até mesmo um pouco a mais do que o desejável, têm conserto; os criados sem limites não têm”.

Frustração é parte da vida. Nada mais satisfatório do que vencer obstáculos, externos ou internos. O que vem fácil, fácil vai... Serve para tudo o mote: material, psíquica, social, espiritualmente.

Desenvolver recursos, ampliar potenciais, reconhecer limitações, é parte do sentir-se vivo.

Inteligência não é igual à sabedoria. Ter inteligência, mas não usá-la, sabotá-la, embotá-la, usá-la para o Mal, equivale a uma burrice emocional. No filme Forrest Gump, Tom Hanks atua como um rapaz com quociente de inteligência rebaixado, mas realiza tarefas complexas (dentre elas a paternidade): aprende, reconhece quem o ajuda. Sua atitude, de auto-confiança, transmitida pela mãe, e assimilada por ele, o faz inteligente, ainda que deficiente.

Adultos precisam ser confiáveis.

Comportar-se é reconhecer a dureza e a complexidade da vida! Desejos são desejos - não se realizam magicamente. A sua realização depende de esforço contínuo, determinado, não somente para a conquista, mas para a manutenção do realizado. Cuidados com a manutenção direcionam a sobrevivência e a permanência da obra.

O realizador tem prazer com o realizado? Na saúde, não é necessário aplauso, reconhecimento do feito, externamente: a maturidade advém da capacidade de se apropriar do construído. Com zelo e gratidão. O benefício floresce, internamente.

Não é simples criar filhos, ajudá-los a se apropriar do valor e do prazer do esforço requerido para a realização de um desejo. Criar outro ser humano é empreitada gigante.

A medida intransferível de força para atingir um objetivo lhe confere dimensão: importância, significado, nobreza. Realização que satisfaz, plena mente.

Nada que se possa comprar em supermercados.


 

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