Da terra à terra

Por: Ligia Freitas

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Há tempos dizem que a vida não vem com manual, no entanto, a cada passo torto esbarramos numa regra, fórmula, etiqueta, numa gente cheia de certezas, tudo deve ser copiado, nada inventado, criado, feito por instinto ou por natureza individual.

Construímos muros para cercar nossas famílias, nossos desejos e até o nosso jeito de sonhar, inevitavelmente encontramos conforto apenas quando nos acontece o esperado, quando a linha do trem não é descarrilhada e ninguém chacoalha o nosso vagão.

Que bom que existem as crianças para inovar a nossa vida, fazer círculo na linha reta e descosturar o que era meta.

Adulto assim que nos surpreende, dá aquele chacoalhão no jeito de pensar? Não existe, não não. Peraí, existe sim, vou lhe contar.

É uma escritora que se chama Sheyla Smanioto.

E a sua ferramenta uma cartola mágica com palavras soltas, aparentemente desconexas, que caem como uma luva nas mãos do leitor desavisado que percebe a transformação da palavra em ave, como dizia Guimarães Rosa: “Ave, Palavra” porque o objetivo de toda palavra é voar.

Quisera eu ter essa coragem de Sheyla que se agiganta na arte de revolucionar, que traz concretude às mazelas da vida em respirações de lamúrias, em pontos lotados de nó, em cabelos embaraçados, em armadilhas, caminhos que se cruzam sem nada esperar.

Como pode a desconstrução se assemelhar à vida?

Como pode alguém causar angústia em seu peito apenas com palavras? Como pode a desordem ser algo tão humano?

Bato a porta do livro com força, não quero ler mais, chega, ela se entreabre sozinha, e quando vejo já estou espiando novamente, toda nua, olhando e admirando minhas imperfeições.

Quisera eu dizer sem nada dizer e tudo dizer, porque tudo é pouco e dizendo malditas palavras fúnebres que machucam e ninguém consegue entender seria Sheyla, melena, dilema, quimera dos tempos loucos, apenas tento, invento aqui um pouco para mostrar o que ela faz, claro jamais serei sereia como ela, só um esboço para você entender um pouco, desse desentendimento que não é pra entender, porque a vida é assim: pra sentir.

Os livros não vêm com manual, mas são parecidos, do início ao fim.

Os livros já foram queimados na fogueira, porque o que se queria queimar realmente era a consciência coletiva de uma geração.

Se resolvessem queimar todos os livros eu imploraria para que um, apenas um, fosse enterrado feito gente: Desesterro de Sheyla Smanioto, porque aquilo que nasce da terra a ela deve retornar.


 

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