Maktub

Por: Janaina Leão

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Recebi mensagem dia desses via Facebook: “pois eu termino de ler suas crônicas todos os domingos”, beijos, tia Zaira.”

Alegria invadiu-me: era minha professora da 2ªsérie, eu tinha 8 anos! Passados 31 anos, este dia chegou.

Existem dois tipos de escritores, os que escrevem mirando prêmios, e os como eu que escrevem quando o coração manda.

Ela estava com minha idade hoje (39) quando foi minha professora no colégio centenário da Franca. Tenho memórias horríveis de lá, mas de algumas professoras eu guardo muito carinho e respeito, porque era exatamente isso que elas me davam.

Tia Zaira era baixinha e doce, e tinha a Zairinha que também era professora. Curiosidade que só matei agora: Zaira é de origem árabe e significa Florida, e a Zairinha foi arte do Sr Roberto- o pai. Contou ela que haviam combinado outro nome, mas quando ela viu a certidão, a “arte” estava feita. Sendo assim a segunda filha se chamou Roberta (a tia Zaira devolveu a arte).

Guardou algo na memória: disse-me que não esqueceu dum episódio que minha mãe contou a ela: eu dei presente para outra professora e não dei para ela dizendo:

- Não precisa, a Tia Zaira já gosta de mim.

Eu não lembrava disso, mas assim que soube me coloquei a dobrar origamis e preparar o presente mais bonito que eu pudesse fazer. Visitei a tia Zaira, que hoje tem 80 anos de pura vitalidade, e lhe entreguei um móbile de kusudamas: bem mais bonito que o presente que dei pra outra professora há 31 anos. Com certeza estava querendo notas porque matemática na minha vida só na base da sedução (risos). A única conta que sei fazer de “cabeça” é a de somar as pessoas que me fazem e fizeram bem.

Tia Zaira me mostrou uma redação que fiz aos oito anos e que ela guardou durante três décadas. Eu já era escritorinha. Hoje como psicóloga me li diferente: quanto sofrimento já havia ali aos oito... E que milagre essa vida dar voltas. Ser humano é montar um quebra-cabeça às vezes, e essa pecinha que ganhei foi fundamental pra que eu entendesse a Jana de hoje, a partir do que a Janaína criança passou. Reconheço as bênçãos que recebi também: apesar de todas as surras que a vida me deu, é das vivências “floridas” que lembro mais!

Maktub (estava escrito), Tia Zaira! Muito obrigada, você é memória viva: a professora de matemática não (risos). Eu volto aí pra mais um café, hein!

 

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